A ERA DA INOVAÇÃO | Startups: a face visível da nova onda
No início, elas eram chamadas de empresas incubadas; hoje, são as startups, palavra da língua inglesa que, ao pé da letra, significa começar para cima. Porém, seja qual for denominação utilizada, o fato é que o mundo da inovação não existiria sem elas – as startups. No Brasil, são 12,7 mil, concentradas em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Sartups (ABSTartups), Amure Pinho, Minas Gerais é hoje o segundo estado em concentração de startups no Brasil, com 1.071. Os principais centros de inovação estão localizados em Belo Horizonte (599), Uberlândia (127), Juiz de Fora (67) e Uberaba (33). Em relação ao perfil, elas são principalmente dos segmentos de educação, agronegócio e finanças. O que há de comum entre elas é uso da tecnologia, seja para fazer a interface com o consumidor ou usuário final, ou então para a melhoria de processos internos nas empresas que contratam seus serviços.
As startups normalmente se agrupam em um “ecossistema”. Em Belo Horizonte, há vários dele: Órbi, Semear Innovation, FiemgLab, Rajja Valley, BHTec e o San Pedro Valley, o mais antigo de todos. Todos têm o que é chamado de investidor-anjo – empresas que entram com aquilo que as startups normalmente não têm: capital.
O investidor-anjo banca a estrutura física, bem como o apoio nas áreas jurídica e administrativa, entre outras, além de ser um facilitador da aproximação das startups com seus futuros clientes. O ecossistema de hoje é a “incubadora” de tempos atrás.
Especialização – Alguns desses ecossistemas são especializados, como o FiemgLab, que incentiva startups que desenvolvem projetos para a indústria, como faz a Hedro Sistemas Inteligentes. Por meio de sensores, a Hedro monitora, em tempo real, via internet, o funcionamento de motores e equipamentos. Com isso, é possível saber se estão funcionando de forma adequada, ou se necessitam de parada para manutenção, entre outras funções que podem executar.
A Hedro tem sensores que monitoram, por exemplo, rolamentos de equipamentos ferroviários, fresadoras em indústria automobilística ou exaustores em granjas. O monitoramento dos exaustores faz com que seja soado alarme, pois a interrupção de seu funcionamento pode resultar na morte dos animais, explica o engenheiro mecatrônico Cássio Barbosa, um dos sócios-fundadores da Hedra, startup que, recentemente, foi selecionada para integrar a Conexão Startup Indústria, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
A startup InstaRain também trabalha com o sensoriamento remoto, só que em outra área: a da previsão de tempo de curto prazo. A startup começou a nascer quando o astrônomo e engenheiro civil Cristóvão Jacques Lage de Faria desenvolveu, para o observatório astronômico que mantém em Oliveira, no Centro-Oeste de Minas, um sistema que detecta a aproximação de chuva e fecha automaticamente as partes que compõem o teto do observatório, de modo a evitar que a chuva danifique os seus equipamentos.
A partir dessa experiência, ele desenvolveu um sistema de sensoriamento remoto para a Defesa Civil da Prefeitura de Belo Horizonte, que hoje possui 40 estações operadas pela InstaRain. Além do monitoramento da aproximação de chuvas, a startup desenvolveu outros usos: para alagamento em vias públicas, para monitorar níveis de água em rios e riachos e um terceiro, para monitorar umidade do solo e mudanças na inclinação de terrenos. Com isso, é possível prever possíveis desmoronamentos de terras.
Para a prefeitura de Eloi Mendes, região Sul de Minas, a startup desenvolveu um sistema que monitora o volume de água armazenado nas barragens que abastecem a cidade. Se as barragens estão cheias, o uso da bomba elétrica pode ser racionalizado, evitando que entrem em funcionamento no horário de pico do sistema elétrico, quando a tarifa d’água é mais elevada. Segundo Cristóvão de Faria, com a economia de energia, a prefeitura já conseguiu reverter o investimento que fez com a implantação do sistema.
Barulho – O diretor da InstaRain vê com otimismo o cenário da inovação no Brasil, mas acha que seria importante um pouco mais de apoio do poder público, principalmente na modelagem do negócio para que possa atingir o público-alvo de forma mais eficiente.
A exemplo da InstaRain, a F.see Conexões Estratégicas trabalha com monitoramento de situações críticas ligadas ao meio ambiente. Só que em vez de chuva, trabalha com o ruído. Por meio da análise de variáveis como temperatura, velocidade do vento e umidade do ar, a startup consegue prever quando o ruído gerado em uma determinada região chegará a um nível que irá causar incômodo aos moradores próximos.
A F.see trabalha com empresas de mineração que operam próximo de áreas urbanas. Segundo Fernando Cláudio, com todos esses dados em mãos, em uma sala de controle, é possível fazer alterações na rotina de operação da mina de tal forma que os trabalhos não sejam interrompidos nem a comunidade seja afetada.
Uma das soluções possíveis pode, segundo ele, indicar um maior espaçamento entre os caminhões nesses momentos críticos, ou então soluções mais duradouras, como a revegetação de pilhas de material estéril, ou a construção de uma barreira de contêineres para criar um entrave físico à propagação do barulho. “O objetivo é não parar a operação e, ainda assim, manter bom relacionamento com comunidade”, explica Fernando Cláudio.
Geração distribuída – Em parceria com a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), a Metha Energia trabalha com geração distribuída de energia elétrica fotovoltaica e de biogás, entregando para o consumidor final uma energia de custo 15% menor. O processo funciona da seguinte maneira: a leitura é feita pela Cemig, que repassa as informações para a Metha. Esta emite a conta para o consumidor final embutindo nela o desconto oferecido pela Cemig e a remuneração pelo serviço que presta de instalação e manutenção das fazendas solares e das usinas de produção de energia a partir do biogás, um sistema que, de acordo com Victor Soares Teixeira, diretor-executivo da Metha, é bom para as três partes que formam o sistema – a Metha, a Cemig e o consumidor final.
A Metha trabalha no ecossistema da Órbi, que é financiado por um pool de empresas do qual fazem parte a MRV, a Localiza, o banco Inter e o Hospital Mater Dei. Estar sob essa base foi importante, segundo Vitor Teixeira, porque possibilitou que a Metha tivesse acesso a players estratégicos para o desenvolvimento de seu negócio. Este, no entender dele, é um dos principais entraves ao desenvolvimento de startups.
“Sem ter acesso a estes canais, elas acabam não criando soluções efetivas, resolvendo as dificuldades que aparecem de maneira um pouco superficial”, afirma o diretor-executivo da Metha Energia, que já tem uma base da ordem de 6 mil consumidores e deve fechar o ano com um faturamento de aproximadamente R$ 2 milhões a R$ 3 milhões.
Obstáculos – Criar uma startup não significa sucesso no estalar de dedos. Há diversas etapas a serem cumpridas. Em cada uma, diversos obstáculos. Um relatório da consultoria McKinsey sobre a economia digital no Brasil, divulgado este ano, apontou um índice alto de empreendimentos que não conseguem se manter no mercado: 66%.
Segundo o levantamento, as maiores dificuldades relatadas por startups ouvidas foram o engajamento dos consumidores (23%), marketing (13%), precificação e obtenção de receitas (11%), obtenção de financiamento (11%) e construção da tecnologia (9%).
Para Bruno Rondani, fundador da 100 Open Startups, o sucesso na criação e crescimento de startups é “muito difícil”, o que é reforçado pelas estatísticas. Isso, contudo, não significa que a tentativa de empreender seja um caminho equivocado. Em sua opinião, iniciativas deste tipo são saudáveis se encaradas como parte de um processo mais longo.
“O ato de empreender é bem-sucedido se a pessoa aprende e se desenvolve profissionalmente”, diz.
Para Amure Pinho, da ABStartups, a despeito de o Brasil estar na 66ª posição no Índice Global de Inovação, divulgado este ano pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual, o País tem mostrado, cada vez mais, a maturidade e a evolução de seu ecossistema empreendedor. Como exemplo disso, ele cita o recente posicionamento da cidade de São Paulo como Top 10 entre os ecossistemas mais promissores no Global Startup EcosystemReport, do Startup Genome. (Conteúdo produzido pela SME)
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