Dividendos pagos por empresas mineiras caem 27,68% em 2026; entenda os motivos
As companhias mineiras listadas na bolsa de valores brasileira, a B3, distribuíram R$ 2,43 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) no segundo trimestre de 2026, acumulando R$ 3,49 bilhões no primeiro semestre. O montante distribuído nos seis primeiros meses do ano ficou abaixo do registrado em igual período de 2025. A nova tributação sobre lucros e dividendos, em vigor desde janeiro, está entre os fatores que podem explicar a redução.
A cobrança, instituída pela Lei nº 15.270/2025, alterou a isenção de dividendos que vigorava desde 1996. A nova regra estabelece retenção de 10% de Imposto de Renda na Fonte (IRRF) sobre lucros e dividendos pagos por uma mesma empresa a uma mesma pessoa física residente no Brasil, quando o valor ultrapassa R$ 50 mil no mês. Nesses casos, a retenção incide sobre o total distribuído, observadas as exceções legais.
Segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria, os R$ 3,49 bilhões distribuídos pelas companhias mineiras no primeiro semestre de 2026 representam uma queda de 27,68% em relação ao mesmo período de 2025, quando os pagamentos somaram R$ 4,83 bilhões.
A retração é ainda mais acentuada na comparação com o segundo semestre do ano passado, quando os repasses totalizaram R$ 9,01 bilhões. Nesse caso, a redução chegou a 61,21%.
O resultado do segundo semestre de 2025 foi impulsionado principalmente pelos pagamentos do quarto trimestre, que somaram R$ 5,6 bilhões e representaram 62,24% do total distribuído no período.
O advogado especializado em direito societário e fusões e aquisições (M&A) e sócio do escritório Rolim, Goulart, Cardoso Advogados, Fábio Appendino, avalia que a mudança na tributação influenciou a antecipação da distribuição de dividendos em 2025, principalmente no quarto trimestre. Segundo ele, o movimento buscou preservar a isenção tributária prevista na legislação.
Ele explica que algumas companhias ainda possuem valores cuja distribuição poderá permanecer isenta até 2028, desde que atendidas as condições legais.
“Muitas empresas optaram por declarar e pagar os proventos ainda em 2025, enquanto outras preferiram declarar no ano passado e pagar ao longo dos próximos anos até 2028, prazo limite que a lei assegura de isenção”, relata.
Appendino ressalta, porém, que a antecipação dos pagamentos não pode ser atribuída exclusivamente à tributação. Para o advogado, uma análise mais aprofundada é necessária para identificar os fatores que explicam a diferença entre os valores distribuídos no fim de 2025 e no decorrer deste ano.
“Essa redução não foi influenciada necessariamente apenas pela tributação, mas pode também ser resultado da redução do lucro de algumas empresas em função do cenário econômico do País”, avalia.
Na comparação trimestral, a distribuição de dividendos e JCP entre abril e junho de 2026 ficou 16,03% abaixo dos R$ 2,9 bilhões pagos no mesmo período de 2025. Em relação ao primeiro trimestre deste ano, quando os pagamentos somaram R$ 1,05 bilhão, houve crescimento de 130,46%.


Cemig e Energisa lideram distribuição de proventos entre companhias mineiras
O levantamento da Elos Ayta analisou os pagamentos realizados pelas companhias desde o início de 2025. Enquanto algumas empresas reduziram os valores distribuídos, outras apresentaram crescimento. O setor de energia se destacou, com as duas maiores pagadoras de dividendos e JCP entre as companhias mineiras, que somaram R$ 8,27 bilhões no período analisado.
A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) liderou o levantamento, com R$ 5,385 bilhões distribuídos. Os maiores pagamentos se concentraram no segundo trimestre de 2025 (R$ 1,77 bilhão), no quarto trimestre do mesmo ano (R$ 2,19 bilhões) e em outro período informado pelo estudo, com R$ 1,41 bilhão.
Para Appendino, os pagamentos elevados podem estar relacionados às perspectivas positivas para o setor elétrico, impulsionadas pela expansão da inteligência artificial (IA) e dos data centers no Brasil. “O aumento do consumo esperado de energia, naturalmente, irá impulsionar suas atividades de comercialização, geração e distribuição”, acrescenta.
Na sequência aparece o Grupo Energisa, com R$ 2,894 bilhões distribuídos no período analisado. A companhia apresentou pagamentos mais constantes, com pico no primeiro trimestre de 2025, quando os proventos somaram R$ 1,11 bilhão. Nos três trimestres seguintes mais recentes, porém, os valores distribuídos diminuíram.
Outro destaque é a Localiza&Co, do setor de locação e venda de veículos, que acumulou R$ 2,871 bilhões em proventos. Os pagamentos passaram de R$ 379 milhões no primeiro trimestre de 2025 para aproximadamente R$ 571 milhões no segundo trimestre de 2026.

Nesse caso, Appendino avalia que o desempenho pode estar relacionado às sinergias decorrentes da combinação de negócios com a Unidas e aos resultados da companhia.
A Localiza&Co também aparece como a única representante mineira entre as dez maiores pagadoras de dividendos e JCP do Brasil no segundo trimestre de 2026, ocupando a sétima posição em um recorte específico do levantamento.
Para essa comparação nacional, o estudo excluiu companhias de grande porte, como Cemig e Petrobras, cujos pagamentos poderiam alterar significativamente a escala dos resultados. O recorte considerou empresas listadas na B3 com distribuição trimestral superior a R$ 100 milhões entre o segundo trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026.
Entre as dez maiores distribuidoras nesse recorte, três pertencem ao setor financeiro.
O Bradesco liderou os pagamentos no segundo trimestre de 2026, com R$ 3,104 bilhões. O Santander Brasil apareceu em segundo lugar, com R$ 1,738 bilhão, seguido pela operadora de telecomunicações TIM (R$ 1,153 bilhão) e pelo Itaú Unibanco (R$ 1,061 bilhão).
Empresas da B3 que mais distribuíram proventos no segundo trimestre de 2026
- Bradesco: R$ 3,104 bilhões;
- Santander Brasil: R$ 1,738 bilhão;
- TIM: R$ 1,153 bilhão;
- Itaú Unibanco: R$ 1,061 bilhão;
- Caixa Seguridade: R$ 990 milhões;
- B3: R$ 587 milhões;
- Localiza&Co: R$ 572 milhões;
- Allos: R$ 454 milhões;
- Klabin: R$ 422 milhões;
- Gerdau: R$ 363 milhões.
Juros altos e cenário econômico devem influenciar próximos pagamentos
Para os próximos meses, Appendino avalia que a distribuição de proventos deverá ser influenciada principalmente pelas condições do mercado, incluindo os juros elevados e os desafios econômicos enfrentados por determinados setores.
O advogado lembra que as companhias devem observar as regras de distribuição de lucros previstas em seus estatutos sociais e na legislação. Na avaliação dele, um dos efeitos mais diretos da nova tributação poderá ser sentido pelos acionistas pessoas físicas sujeitos à retenção do Imposto de Renda sobre os dividendos recebidos. “Lembrando que os juros sobre capital próprio já são tributados; em 2025 era de 15% e a partir de 2026 passou para 17,5%”, acrescenta.
A estimativa inicial de arrecadação federal com o Imposto de Renda sobre lucros e dividendos em 2026 era de R$ 29 bilhões. Em julho, a previsão foi reduzida para R$ 17,2 bilhões e, em setembro, passou por nova revisão da Receita Federal, chegando a R$ 10,5 bilhões.
- Leia também: Mais da metade dos investidores mineiros atrasa imposto sobre ganho de capital por desconhecer regras
Na avaliação do sócio do escritório Rolim, Goulart, Cardoso Advogados, a existência de dividendos ainda abrangidos pelas regras de transição pode ajudar a explicar a redução da estimativa de arrecadação. Segundo ele, esse volume de recursos pode ter sido subestimado pelo governo federal. “As empresas fizeram seu dever de casa, cumpriram a legislação e se beneficiaram da isenção que foi assegurada por lei”, diz.
Apesar da revisão das expectativas de arrecadação, Appendino considera pouco provável uma mudança na legislação tributária no curto prazo. Na avaliação dele, o período eleitoral e a perspectiva de renovação da composição do Congresso Nacional dificultam a discussão de novas alterações.
Assim, o especialista projeta a manutenção das regras atuais nos próximos meses. “O ambiente de discussão, seja para redução, aumento ou readequação da carga tributária, só surgirá em janeiro do ano que vem, quando ficará mais clara as vontades da população”, projeta.
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