Distribuição de proventos das empresas de capital aberto recua 27% em 2026
As companhias de capital aberto listadas na Bolsa de Valores brasileira, a B3, distribuíram R$ 116,7 bilhões em proventos nos cinco primeiros meses deste ano. O levantamento realizado pela fintech Meu Dividendo demonstra que esse valor é 27,3% abaixo do registrado no mesmo período de 2025 (R$ 160,5 bilhões). Entre os fatores que podem explicar essa queda estão o imposto sobre lucros e dividendos e a base de comparação mais forte.
O advogado tributarista Flávio Bernardes, do escritório Bernardes, Tostes, Sobreira & Medrado, avalia que a tributação de dividendos pode estar entre os principais fatores que explicam esse cenário. No entanto, ele pondera que as empresas de capital aberto tendem a possuir deliberações específicas e regras de governança para tratar desse tipo de questão.
O especialista relata que muitas companhias anteciparam a distribuição de parte dos lucros acumulados até o final do ano passado para escapar da tributação. “Esse pode ser um dos motivadores, pois quem já tinha lucro acumulado já distribuiu de forma antecipada”, diz.
O estudo destaca que o volume de dividendos, Juros sobre Capital Próprio (JCP) e demais proventos no ano passado foi o maior já registrado na série histórica, sendo amplificado por pagamentos extraordinários pontuais de grandes empresas. Além disso, apesar da retração, o montante de 2026 supera os resultados observados em 2020, 2021 e 2022, indicando que o mercado atingiu um patamar estruturalmente mais elevado de distribuição após o salto no período entre 2022 e 2023.
A pesquisa aponta que as distribuições extraordinárias e acima do padrão histórico de empresas como Itaú Unibanco (R$ 27,8 bilhões) e Ambev (R$ 8,7 bilhões) foram motivadas pela tributação de dividendos. O cenário de proventos extraordinários divulgados no segundo semestre do último ano acaba comprometendo a comparação com o atual exercício.
Quanto aos impactos no comportamento das empresas, Bernardes avalia que tende a ser menor entre as companhias de capital aberto, devido à presença de um grupo controlador estrangeiro em alguns casos. No entanto, o advogado tributarista também acredita que algumas empresas poderão dosar a base de distribuição de proventos.
“De qualquer forma, como elas já teriam que pagar os 10%, isso não será um fator determinante, devido ao aspecto de governança das empresas de capital aberto”, pondera.
Já no caso dos demais negócios, que não estão submetidos a regras específicas, o especialista ressalta que deverá haver uma mudança na forma de realizar a distribuição de lucros.
JCP é o grande destaque entre os proventos

Entre os proventos pagos no período entre janeiro e maio, o grande destaque são os JCPs, que somaram R$ 62,5 bilhões, superando pela primeira vez os dividendos na composição dos proventos pagos, com 53,6% de participação, a maior da série histórica. Para efeito de comparação, em 2022 esse índice era de 23,2% do total.
O levantamento aponta que esse crescimento reflete estratégias de otimização tributária adotadas pelas empresas e sinaliza atenção ao ambiente regulatório, dado que o mecanismo está sob escrutínio legislativo. A participação recorde deste tipo de provento ocorre em momento de instabilidade regulatória sobre o mecanismo.
“Propostas em discussão no Congresso Nacional podem alterar ou limitar o JCP nos próximos exercícios, com impacto direto no volume e composição dos proventos distribuídos”, pontua o estudo.
O advogado tributarista explica que, devido aos benefícios fiscais, o JCP já vinha sendo um dos principais destaques nesse segmento e deverá permanecer dessa forma nos próximos anos. Ele não projeta grandes mudanças nesse grupo de proventos e nas formas que as empresas utilizam para fins tributários. “Esse aspecto de influência que nós tivemos na forma de pagamentos de JCP permanecerá”, completa.
O Meu Dividendo ressalta que o prazo médio dos pagamentos de maio chegou a 99,6 dias, o mais elevado dos cinco primeiros meses do ano. Isso indica que uma parte relevante dos proventos declarados no período ainda será liquidada entre os meses de junho e setembro. Esse cenário pode acabar compensando parte da queda registrada até o momento.
Empresas e setores que mais distribuíram dividendos
Entre as maiores pagadoras de proventos da B3 neste ano, a mineradora Vale se tornou a líder do ranking, após apresentar uma variação positiva de 169,1%, passando de R$ 12,1 bilhões nos cinco primeiros meses de 2025 para R$ 32,5 bilhões neste ano.
Esse salto reflete a recuperação dos preços do minério de ferro e a retomada de uma política agressiva de retorno ao acionista. A companhia pagou R$ 7,16 por ação nos cinco primeiros meses do ano, liderando também a análise por papel, valor superior ao pago no ano passado (R$ 2,66/ação).
Já a Petrobras caiu para o segundo lugar, distribuindo R$ 30,9 bilhões entre os meses de janeiro e maio. A queda no ranking ocorre mesmo com uma leve alta de 0,2% no volume frente ao mesmo período do último exercício (R$ 30,8 bilhões). Em seguida aparece o Itaú Unibanco, que permanece em terceiro mesmo com a redução de 69,5%, de R$ 27,8 bilhões para R$ 8,5 bilhões.
Ranking das 10 maiores pagadoras de proventos da B3 em 2026:
- Vale (R$ 32,5 bilhões);
- Petrobras (R$ 30,9 bilhões);
- Itaú Unibanco (R$ 8,5 bilhões);
- BB Seguridade (R$ 5,2 bilhões);
- Santander Brasil (R$ 4,5 bilhões);
- Bradesco (R$ 2,7 bilhões);
- BTG Pactual (R$ 2,5 bilhões);
- Caixa Seguridade (R$ 2 bilhões);
- B3 S.A. (R$ 1,3 bilhão);
- Ambev (R$ 1,2 bilhão).
Já na divisão por setores, o grupo dos materiais básicos, impulsionado pela Vale, superou o setor financeiro e lidera a lista de distribuição com R$ 35,6 bilhões no período, o que representa um acréscimo de 103,3% em relação ao ano anterior (R$ 17,5 bilhões). Essa é a primeira vez na série histórica que o segmento supera o setor financeiro que registrou queda de 55,1%, passando de R$ 54 bilhões para R$ 24,3 bilhões.
O quadro setorial dos cinco primeiros meses do ano revela uma clara rotação na origem dos proventos. Enquanto as áreas de materiais básicos e de petróleo e gás sustentaram ou ampliaram seus volumes, a maioria dos demais setores registrou recuo expressivo. No caso do setor de petróleo, gás e biocombustíveis foram distribuídos R$ 31,2 bilhões, montante 4,2% abaixo do registrado em 2025 (R$ 32,6 bilhões).
Preparação das empresas para as mudanças

Quanto à adaptação das empresas para esse novo cenário, Bernardes avalia que não houve uma preparação adequada, com algumas acreditando que a mudança seria apenas um registro de ata fácil, calculando os lucros acumulados em 2025. Ele lembra que a Receita Federal exigiu o estabelecimento da forma e do cronograma dessas distribuições, sem incidência, a partir de 2026.
“Nem todas as empresas fizeram isso de forma clara e muitas colocaram a distribuição de tudo que estava acumulado, sendo que parte disso é necessário para a operação e essas empresas não têm disponibilidade de caixa”, diz.
No entanto, o especialista demonstra maior preocupação na questão envolvendo a reforma tributária, que já possui uma série de obrigações acessórias sendo executadas neste ano. Entre elas, o advogado tributarista menciona a obrigatoriedade do destaque dos dois novos tributos nas notas fiscais a partir de agosto.
- Leia também: Fase de testes da reforma tributária expõe falta de preparo das empresas em Minas Gerais
Ele relata que muitas empresas não estão acompanhando esse processo e não estão cientes do impacto que essa mudança terá, como o aumento da carga tributária. Bernardes projeta uma mudança no sistema de apuração de tributação da maioria das empresas, com destaque para aquelas do regime de lucro presumido e o grupo de pequeno e médio porte.
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