Do boom dos data centers
Receber bilionários investimentos em data center virou quase obsessão dos prefeitos no Brasil. Sem dúvida alguma, com o exponencial crescimento do uso da internet e suas ferramentas, inclusive a inteligência artificial, a expansão da infraestrutura que processa trilhões de dados na nuvem, é um must da nossa era. Se não se expandir os data centers que guardam e processam esses dados, e assim é a infraestrutura indispensável, o mundo simplesmente para. Não só o TikTok, mas o Pix, as transações bancárias e comerciais, o tráfego aéreo e tudo o mais. Ficamos não só no escuro, mas voltamos à era de escrever cartas, como bem descreveu no seu romance“La Silla del Águila”, a cadeira da águia, do mexicano Carlos Fuentes, há mais de 30 anos.
Os investimentos em data center, segundo a consultoria McKinsey, somam até 2030, 7 trilhões de dólares no mundo. A maior parte desses investimentos será nos Estados Unidos, Europa e China. Mas, eles também serão feitos em países como o Brasil. A característica básica dos data centers é o uso de equipamentos de processamento sofisticados, que poucos produzem, extensivo uso de energia e água. Um data center como o que o TikTok constrói no Ceará consumirá diariamente água igual a 2.2 milhões de pessoas. Um centro pequeno que consome 50 MW de energia elétrica daria para abastecer uma cidade de 50 mil habitantes. Ou seja, para termos data centers precisamos de energia elétrica e água. E aí começa a grande discussão.
Temos energia suficiente e temos água suficiente? No afã de obter os investimentos, prefeitos e governadores se vangloriam de receber, na sua área, investimentos bilionários, mas as contas na ponta do lápis não são bem feitas. Primeiro tem que garantir água e energia para a população. Segundo, todos os cálculos no mundo inteiro mostram que instalações de data center, que requerem redes de energia que em geral estão tecnicamente e fisicamente envelhecidas, e às vezes distantes, aumentam o preço da energia em até 30%. E da água também. Para compensar isso, não se constroem data centers sem um imenso pacote de incentivos fiscais e tributários. No Brasil está em curso a legislação que define regras, Redata, parada no Senado. A maioria dos investidores são grandes empresas de tecnologia, cujo poder de negociação supera o dos estados. Os ecologistas, que adicionam às desvantagens o ruído, conseguiram que 18 estados norte-americanos proibissem a instalação de data centers.
No Brasil, é melhor termos eles aqui, do que só nos outros países, mesmo que do investimento só participemos no básico, porque o funcionamento requer pouca, mas qualificada, mão de obra. E deve ser feito o cálculo, se forem dados incentivos, do que volta para o estado, porque o que volta para o investidor está claro. Tem que ter data centers, mas com custo e benefícios recíprocos bem calculados.
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