Produtividade não pode ignorar o custo humano, diz autor de livro sobre desaceleração
Estar sempre disponível virou sinônimo de comprometimento em boa parte das empresas brasileiras. Para o jornalista e advogado Júlio César Rodrigues, a equação tem um custo que as planilhas costumam deixar de fora. “Mas não podemos discutir produtividade ignorando o custo humano de jornadas excessivas”, afirma o autor de “Leia se (não) estiver ocupado”, livro de crônicas sobre a relação das pessoas com o tempo.
A discussão deixou de ser apenas comportamental. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, marcou para esta quarta-feira (14) a votação em primeiro turno da PEC 221/2019, que acaba com a escala 6×1. A proposta prevê dois dias de descanso semanal e já passou pela Câmara dos Deputados.
Rodrigues vê o momento como uma oportunidade para tratar o descanso “não deveria ser visto como luxo, mas como parte de uma vida equilibrada”. Ele pondera, porém, o peso da transição para quem emprega. “Claro que mudanças na jornada exigem planejamento e precisam considerar as diferentes realidades econômicas e profissionais.” A preocupação aparece também entre representantes dos trabalhadores. O presidente da UGT, Ricardo Patah, defende a migração para o 5×2, mas admite receio quanto ao aumento de custos para micro e pequenas empresas. Esse debate está na cobertura da negociação entre empresas e sindicatos.

Desacelerar não é trabalhar menos
O conceito central do livro é o que o autor chama de desaceleração consciente. “Não significa necessariamente trabalhar menos, mas deixar de estar sempre ocupado como se isso fosse uma obrigação ou um sinal de prestígio”, explica. Por isso, segundo ele, férias sozinhas não resolvem. “Às vezes tiramos férias e depois voltamos à mesma correria, à mesma ansiedade.”
Rodrigues não contesta metas. Ele considera normal que gestores e equipes sejam cobrados por resultados. “O problema é quando a cobrança por mais trabalho ultrapassa o razoável e o necessário”, afirma.
A experiência é pessoal. Nas redações de jornal e televisão, perder o prazo significava perder a notícia. Na advocacia, uma defesa fora do prazo legal pode custar a causa do cliente. Mesmo assim, ele reconhece excessos. “Mas muitas vezes estendi meu horário de trabalho por causa de uma tarefa que não era urgente.”
Quando a equipe passa do limite
O primeiro sinal de alerta, segundo o autor, é o cansaço que deixa de ser pontual e passa a fazer parte da rotina. Ele inclui nesse quadro a perda de concentração, a irritação e a sensação permanente de não dar conta das tarefas. No coletivo, o efeito chega à operação. “Nas equipes, isso pode aparecer no aumento dos conflitos, nos erros e na queda da qualidade do trabalho.”
Rodrigues atende empresas como advogado e diz conhecer companhias atentas ao bem-estar dos funcionários. Ele aponta, no entanto, uma incoerência frequente no discurso corporativo. “Não adianta a empresa falar em qualidade de vida e, ao mesmo tempo, esperar que seus funcionários respondam mensagens de madrugada, estejam disponíveis durante as férias ou trabalhem permanentemente sob pressão.”
Para a liderança, a receita inclui cortar reuniões desnecessárias, respeitar o horário de descanso e dar o exemplo. “Se o gestor nunca para, a equipe pode entender que também não tem esse direito.”
Celular e inteligência artificial
O autor defende o direito à desconexão com a mesma lógica. Na visão dele, nenhuma ferramenta tecnológica deveria manter o profissional em estado permanente de prontidão. Rodrigues é direto sobre o smartphone: “Fomos escravizados pela ditadura do celular.”
A inteligência artificial, que promete liberar tempo, pode ter o efeito contrário no ambiente de trabalho. “Também me preocupa que ela nos obrigue a correr ainda mais em busca de resultados, já que, em muitos casos, poderá ser vista como uma espécie de concorrente, elevando as expectativas de produtividade e desempenho.”
Ele também rejeita a leitura de que desacelerar signifique falta de ambição. Para o autor, é possível crescer, empreender e entregar resultados sem abrir mão do restante da vida. “Afinal, não gostaria de chegar ao fim da vida com a agenda cumprida e a sensação de que estive ocupado demais para vivê-la.”
Crônicas para quem não tem tempo
O livro reúne textos curtos e independentes, que podem ser lidos em qualquer ordem. O formato foi pensado para o leitor apressado, e as ilustrações são de Simon Taylor. A obra foi lançada em Arapongas (PR), cidade do autor, e passou por Londrina, Curitiba e pela Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
Ainda não há data para Belo Horizonte, mas a vinda está nos planos. A mãe de Rodrigues nasceu em São Gotardo, no Alto Paranaíba. “Eu teria enorme alegria em promover o lançamento do livro em Belo Horizonte, afinal sou de família mineira.”
Publicidade Legal
Impresso
Ver outras datasDigital
- ATA DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINARIA ANAX CONSTRUCAO E COMERCIO S/A
- AVISO DE LICITAÇÃO PROCURADORIA GERAL DE JUSTICA DE MINAS GERAIS
Ouça a rádio de Minas