Gestão

Saúde mental vira obrigação legal a partir de maio e desafia empresas a rever práticas

Nova NR-1 exige mapeamento de riscos psicossociais e impulsiona crescimento de soluções de bem-estar corporativo e serviços preventivos
Saúde mental vira obrigação legal a partir de maio e desafia empresas a rever práticas
Foto: Reprodução/Adobe Stock

Empresas que não estiverem atentas à saúde mental de seus colaboradores poderão ser punidas. Entra em vigor, a partir de 26 de maio, uma atualização significativa da Norma Regulamentadora (NR-1), que passa a obrigar as organizações a incluírem os impactos psicossociais aos quais os funcionários estão expostos no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Na prática, será necessário identificar, avaliar e implementar medidas para mitigar fatores que possam causar estresse, ansiedade, depressão ou outros problemas relacionados ao bem-estar da equipe. A abordagem proativa busca prevenir ocorrências antes que se tornem graves.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a atualização já havia sido informada às empresas em abril de 2025, porém ao longo deste primeiro ano, elas teriam a obrigação de iniciar a implementação da identificação dos perigos, e a adoção de medidas de proteção dos trabalhadores em relação aos riscos psicossociais.

“A partir da vigência, as empresas poderão ser autuadas caso descumpram as etapas de identificação e análise dos riscos psicossociais em seus ambientes de trabalho e, principalmente, se não estabelecerem medidas de proteção aos trabalhadores aos fatores de risco identificados”, informa o MTE.

Nova NR-1 exige mudança estrutural na gestão, segundo presidente da ABRH-MG

Para o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Minas Gerais (ABRH-MG), David Braga, o nível de preparo das empresas mineiras à nova NR-1 ainda é heterogêneo. Segundo ele, há organizações mais maduras, especialmente aquelas com governança mais estruturada, cultura de gestão consolidada e maior integração entre Recursos Humanos, Jurídico, Saúde e Segurança do Trabalho e liderança executiva, que já compreenderam que os riscos psicossociais precisam ser tratados com o mesmo rigor técnico dos ocupacionais.

“Por outro lado, há uma parcela do mercado que ainda se encontra em estágio inicial, muitas vezes limitada a ações pontuais de bem-estar, sem metodologia, indicadores, rastreabilidade ou documentação adequada para sustentar a conformidade e a efetividade”, relata.

Braga afirma que a questão mais emblemática sobre a pauta não está centrada apenas no preparo da empresa para atender a uma exigência normativa, mas se ela está, de fato, disposta a revisar práticas, lideranças e modelos de trabalho que vêm adoecendo pessoas de forma silenciosa. “A NR-1 traz uma obrigação, mas também oferece uma oportunidade concreta de evolução da maturidade organizacional”.

De acordo com ele, um dos principais desafios que as empresas enfrentam na prática para mapear e documentar fatores como estresse, assédio moral e sobrecarga de trabalho é compreender que fatores psicossociais são, por natureza, mais complexos e menos visíveis do que riscos tradicionais.

“Não basta perguntar se há estresse ou assédio; é preciso compreender como o trabalho está sendo desenhado, como metas são estabelecidas, como lideranças operam, como decisões são comunicadas, quais áreas concentram sobrecarga, quais padrões de relacionamento estão adoecendo equipes e quais estruturas organizacionais estão gerando pressão crônica”. A postura, segundo ele, exige maturidade metodológica, escuta qualificada, leitura de dados e, sobretudo, disposição para olhar causas estruturais e não apenas sintomas.

Presidente da ABRH-MG
David Braga, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Minas Gerais (ABRH-MG). Foto | Divulgação ABRH-MG

Outro desafio, conforme aponta o dirigente, está na documentação com qualidade técnica e segurança jurídica. Muitas empresas ainda não sabem exatamente como transformar percepções subjetivas em evidências gerenciais e ocupacionais consistentes. “Isso exige cruzar instrumentos como pesquisas, escuta ativa, análise ergonômica, indicadores de afastamento, turnover, denúncias, clima, jornada, absenteísmo e sobrecarga, além de registrar adequadamente o inventário de riscos, os grupos expostos, as medidas de controle e os planos de ação”, diz.

Braga também reforça a importância de tratar a NR-1 não como um projeto de urgência regulatória, mas como uma agenda estratégica de gestão. Segundo ele, o tema precisa sair do campo exclusivo do discurso e entrar na agenda executiva com método, governança, indicadores, escuta e plano de ação. “As empresas precisam revisar seus processos, seus modelos de liderança, sua organização do trabalho e seus mecanismos de prevenção antes que a fiscalização as obrigue a fazer isso de forma reativa”.

Por fim, o dirigente aponta, ainda, que as organizações que tratarem a pauta com seriedade estarão não apenas mais protegidas do ponto de vista regulatório, mas também mais preparadas para enfrentar desafios de engajamento, retenção, performance e reputação. “Em um cenário em que o capital humano se tornou um ativo cada vez mais estratégico, cuidar dos fatores psicossociais deixou de ser diferencial. Passa a ser, definitivamente, um critério de responsabilidade empresarial e competitividade”, explica.

Plataforma aposta em meditação com realidade virtual para apoiar empresas na adequação à NR-1

Com a iminência da atualização da NR-1, despontam no mercado alternativas disponíveis para ajudar as empresas a desenvolverem programas de bem-estar e se adequarem à nova norma. A terapeuta mineira Lílian Machado, por exemplo, criou uma plataforma de saúde mental corporativa que desenvolve soluções para prevenção e gestão de riscos psicossociais com uso de tecnologia e dados.

Ainda em implementação e já com a adesão de três empresas, o sistema oferece ao colaborador sessões imersivas de meditação e relaxamento, de até dez minutos, com o uso de óculos de realidade virtual. A plataforma, por enquanto disponível apenas no ambiente corporativo, pode ser acessada pelo funcionário com login e senha fornecidos pela empresa.

“Sempre que o colaborador usa o canal, ele escolhe um tipo de relaxamento para o qual precisa naquele momento. As demandas vão desde aumentar o foco, ganhar disposição, melhorar a produtividade, até alívio do estresse”, conta. Durante a sessão, ele é teletransportado para outros ambientes como praias, florestas e lagos. “Antes e após o término do relaxamento, o funcionário vai se autoavaliar, respondendo como se sente. O resultado fornece diversos dashboards para o gestor, que podem ser usados como insumo na gestão dos riscos psicossociais da equipe, agora determinados na NR-1”, explica a terapeuta. Esses indicadores podem sinalizar, para a empresa, a evolução do risco para o qual o colaborador ou o time vem sendo exposto.

Lílian afirma que o método tem como referência um dos princípios da neurociência, a neuroplasticidade – capacidade do cérebro de se modificar constantemente, criando novas vias neurais e eliminando aquelas que não são mais utilizadas. “Nós só interrompemos gatilhos mentais se o nosso cérebro entender que eles foram eliminados. Assim geramos novos. Existem várias terapias, hoje, que trabalham esse aspecto, de que você se concentre em um objeto ou cenário, ainda que fictício ou distante, para ter uma melhora imediata em uma sensação incômoda”, destaca.

Ainda de acordo com a terapeuta, as minissessões terapêuticas são destinadas às três esferas da empresa, gestão, direção e operacional. “Assim é possível ter uma visão holística da saúde mental de toda a equipe”, diz. Em breve o sistema vai ganhar uma atualização. Se, por exemplo, o funcionário estiver fazendo as imersões há duas semanas, mas continuar apresentando os mesmos incômodos, o próprio dispositivo vai orientá-lo a procurar um profissional especializado. “É importante reforçar que a plataforma não substitui o médico, o psicólogo, o terapeuta ou qualquer outro profissional de saúde mental. Ela será apenas um suporte necessário para que a empresa tenha os subsídios solicitados pela Lei”.

Bem-estar corporativo impulsiona crescimento de mais de 120% em rede de spa

Com unidades em Belo Horizonte e Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e em 11 estados do País, a rede Buddha Spa tem registrado crescimento dos serviços focados no chamado bem-estar corporativo. Segundo a companhia, a venda de vouchers para empresas — utilizados como reconhecimento, premiação ou benefício recorrente para funcionários — cresceu mais de 120% em 2025, em comparação ao ano anterior.

Além disso, atendimentos realizados dentro das organizações, por meio de iniciativas estruturadas, vêm ganhando espaço como ferramentas de promoção do bem-estar no ambiente de trabalho. Atualmente, a Buddha Spa atende mais de 40 empresas parceiras que oferecem massagens e terapias relaxantes aos seus colaboradores, entre elas organizações como Bradesco, Louis Vuitton, Moët Hennessy, Sephora e O Boticário.

“Há alguns anos, era mais comum uma ação reativa diante de diagnósticos de condições como o estresse e a ansiedade. Hoje, a incorporação de hábitos saudáveis à rotina diária é uma prática preventiva e passou a assumir um papel importante no enfrentamento de problemas de saúde mental”, explica o CEO da rede Buddha Spa, Gustavo Albanesi.

Executivo sentado na cadeira
Gustavo Albanesi, CEO da rede Buddha Spa. Foto | Divulgação Buddha Spa

O executivo reforça que o desafio que se impõe, agora, não é apenas cumprir uma norma, mas compreender seu espírito. “Organizações que enxergarem a NR-1 como uma oportunidade — e não apenas como uma obrigação — estarão mais preparadas para construir ambientes de trabalho mais humanos, produtivos e sustentáveis em longo prazo”, acredita.

Para a diretora de RH da rede Buddha Spa, Lucia Freire, a implementação efetiva da NR-1 exige o engajamento das empresas na construção de políticas preventivas, planos de ação consistentes e, principalmente, escuta ativa das pessoas. “Precisamos observar sempre quatro pilares dentro de uma organização: o físico, emocional, social e espiritual dos colaboradores. Quando esses pilares são equilibrados, os problemas psicossociais tendem a reduzir significativamente”, finaliza.

Números alarmantes

  • Transtorno mental associado ao esgotamento físico e emocional, o burnout ganhou destaque em 2022, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) o incluiu na lista de doenças ocupacionais. No Brasil, estima-se que cerca de 30% dos trabalhadores sejam afetados por essa condição, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt).
  • Dados do Ministério da Previdência Social revelam que, em 2024, o Brasil registrou 472.328 benefícios concedidos por questões de saúde mental, como ansiedade e depressão. O número representa um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Além disso, só no primeiro semestre de 2025 foram concedidos 271.076 benefícios pela Previdência por transtornos mentais, quase o mesmo total concedido em todo o ano de 2023.
  • Considerando apenas os casos de esgotamento profissional (síndrome de burnout) entre 2021 e 2024, houve um avanço de 178% nas concessões de benefícios por incapacidade laboral no País. Em Minas Gerais, a alta chegou a 212%.
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