Minas amplia produção de lítio, mas refino segue ‘congelado’
O Movimento Minas 2032 (MM2032), iniciativa do Diário do Comércio e do Instituto Orior, parte de uma constatação: os grandes desafios do desenvolvimento de Minas Gerais não se resolvem dentro de uma única empresa, de um único setor ou de uma única política pública. A cadeia do lítio é um retrato disso. O Estado tem reservas, tecnologia de refino desenvolvida em território mineiro e mão de obra qualificada. Cada empresa, no entanto, toma a decisão que faz sentido para o próprio negócio, e a soma dessas decisões mantém Minas na base da cadeia.
Se nada mudar no ritmo atual, o Estado chegará a 2032 produzindo mais concentrado de lítio e ainda sem transformá-lo aqui. Entre retomadas de operações, investimentos em eficiência e novos projetos no Vale do Jequitinhonha, a mineração e o beneficiamento do mineral ganham impulso. A transformação química, etapa que concentra mais valor, segue fora dos planos imediatos de expansão das empresas do setor, diante de um cenário de baixa atratividade econômica.
Pioneira na transformação química do lítio em Minas Gerais, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) ilustra esse movimento. Enquanto prepara um investimento de US$ 170 milhões para ampliar a produção de concentrado mineral de 50 mil para 160 mil toneladas anuais, a empresa reduziu a produção de compostos químicos a 40% da capacidade de sua refinaria, em Divisa Alegre, no Norte de Minas. O projeto de triplicar a capacidade da unidade, de 2 mil para 6 mil toneladas anuais, permanece congelado. A ampliação dependia da venda de 33% da refinaria à indiana Altmin, negócio que, como o Diário do Comércio noticiou em julho, estava próximo de ser cancelado. Em entrevista ao Diário do Comércio, o CEO da companhia, Vinícius Alvarenga, afirma que o refino perdeu competitividade diante da concorrência internacional e da baixa demanda doméstica.
Atualmente, a produção de compostos químicos da CBL é destinada exclusivamente ao mercado brasileiro, atendendo a setores como o farmacêutico e as indústrias de cerâmica, vidro e lubrificantes. Segundo Alvarenga, a empresa deixou de exportar esses produtos devido à baixa rentabilidade e passou a priorizar as vendas externas de concentrado mineral.
Para o CEO, o principal obstáculo ao desenvolvimento da cadeia industrial do lítio no Brasil é a ausência de demanda doméstica por células de bateria. Ele explica que esses componentes são fundamentais para viabilizar economicamente as etapas anteriores da cadeia de transformação química do mineral. Sem um mercado consumidor capaz de absorver essa produção, os investimentos ficam dependentes das exportações.
“Não haverá investimento em refinaria igual à nossa enquanto não tiver uma demanda garantida, um mercado consumidor garantido. Os investidores privados não farão investimento porque a China colocou um monstro de capacidade da cadeia de valor”, afirma Alvarenga.

Para reverter esse quadro, Alvarenga defende a adoção de políticas de incentivo que estimulem a demanda doméstica e criem condições para novos investimentos industriais. Ele cita como exemplo a própria China, que utilizou subsídios para desenvolver seu mercado de baterias e fortalecer a cadeia produtiva. “Hoje, lá não tem mais subsídio porque o ecossistema ficou maduro, é um ecossistema diversificado e competitivo”, afirma.
Apesar desse cenário, Alvarenga rejeita a ideia de que a expansão da mineração represente um atraso no desenvolvimento econômico. Segundo ele, a atividade envolve tecnologia avançada, mão de obra qualificada e investimentos relevantes, especialmente em municípios do interior. Para o executivo, o desafio não é substituir a mineração pela industrialização, mas criar condições para que ambas avancem.
“A gente tem que parar com esse antagonismo de mineração e indústria. Você tem que ter política para as duas coisas. Você não vê o jornal americano falando que eles querem acabar com a indústria de grãos ou mineral lá. Eles vão querer fazer tudo que gera desenvolvimento, imposto e emprego”, afirma Alvarenga.
Rentabilidade permite investimentos sociais
O foco na produção de concentrado também orienta a estratégia da Sigma Lithium, que retomou recentemente suas operações no Vale do Jequitinhonha. A companhia investiu R$ 600 milhões no primeiro semestre de 2026 para assumir diretamente a operação da mina, modernizar a frota e melhorar a eficiência produtiva. A meta é alcançar um ritmo anual de produção de 330 mil toneladas de concentrado de lítio até o fim de 2027, ante as 240 mil toneladas utilizadas anteriormente como referência.
A CEO da companhia, Ana Cabral, destaca que a estratégia de primarização da mina busca solucionar um gargalo que vinha limitando o aproveitamento da capacidade da planta de beneficiamento: o fornecimento de minério. Embora a unidade industrial tenha passado por melhorias nos últimos anos, a operação de mineração não acompanhou o ritmo necessário para sustentar a expansão da produção. Para enfrentar o problema, a Sigma assumiu a operação, investiu em equipamentos de maior capacidade e em um centro de controle automatizado do processo.
“A frota dobrou de capacidade. O caminhão foi de 40 toneladas para 75 toneladas. A escavadeira foi de 36 toneladas para 105 toneladas. Diminuíram os movimentos necessários para carregar os caminhões e isso gerou eficiência”, explica Ana Cabral.
Concentrado
Segundo a CEO, a Sigma não vê, neste momento, vantagem econômica em avançar para etapas como a fabricação de carbonato e hidróxido de lítio. Ana Cabral afirma que, embora esses compostos tenham preços de venda mais elevados, os custos da transformação química podem comprometer a margem de lucro. Na avaliação dela, ampliar a eficiência e a escala da produção de concentrado é atualmente a estratégia mais rentável para a companhia.
“Por que a gente faz uma estrutura de programa social com tanta coisa bacana ambiental e social? Porque a gente tem esse luxo de ter uma boa margem operacional”, afirma a executiva, relacionando a rentabilidade do negócio à capacidade de investir em iniciativas socioeconômicas no Vale do Jequitinhonha.
Segundo a CEO, a Sigma mantém mais de 1,7 mil empregos diretos e, somados os indiretos, movimenta aproximadamente 11 mil postos de trabalho. A companhia desenvolve ainda programas como o Fundo Dona de Mim, que oferece microcrédito a mulheres da região, e iniciativas de apoio à agricultura de subsistência, com soluções de captação e armazenamento de água.
Conhecimento técnico e profissionais qualificados ajudam setor a avançar
Para o diretor da Associação Brasileira de Engenheiros de Mineração (Abremi), João Hilário, são notórios os avanços da mineração de lítio em Minas Gerais, que reúne conhecimento técnico e profissionais qualificados para desenvolver o setor. Mas ele ressalta que essas conquistas não devem representar o ponto final do desenvolvimento da cadeia. Na avaliação dele, é preciso manter os esforços para ampliar a industrialização e avançar na produção de compostos de maior valor agregado.
“Na questão de recursos e reservas, o relógio andou. Estamos indo bem. Minas Gerais tem um dos estágios tecnológicos mais avançados de mineração, com conhecimento, profissionais e capacidade técnica. Mas continuamos trabalhando na base da cadeia, vendendo concentrado e comprando de volta produtos de maior valor agregado. Enquanto estamos parados, o mundo avança em alta velocidade. Estamos ficando para trás”, avalia.
Um dos caminhos apontados por Hilário é aproveitar a tecnologia já desenvolvida pela Companhia Brasileira de Lítio (CBL). Ele defende a implantação de uma planta modular no Vale do Jequitinhonha para processar o concentrado produzido na região. “Nós nem precisamos desenvolver tecnologia para essa fase. Nós precisamos apenas de força de vontade, de ação”, afirma.
Procurada pelo Diário do Comércio, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG) informou que a estratégia do governo é ampliar gradualmente a industrialização do lítio, com foco na transformação química e na produção de materiais intermediários utilizados na fabricação de baterias. Desde 2019, o Estado contabiliza R$ 7,1 bilhões em investimentos privados atraídos para a cadeia produtiva. Outros R$ 13 milhões foram destinados, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), a projetos de pesquisa relacionados ao mineral.
Segundo a secretaria, a consolidação de uma indústria de baterias depende de fatores como escala de produção, mercado consumidor, infraestrutura e tecnologia. O governo aponta a mobilidade elétrica e os sistemas de armazenamento de energia como oportunidades para atrair novos investimentos, mas mantém sob sigilo eventuais negociações com empresas e não apresentou metas ou prazos específicos para ampliar a participação da transformação industrial na cadeia do lítio.
Publicidade Legal
Impresso
Ver outras datasDigital
- REQUERIMENTO DE LICENÇA BEVAP - BIOENERGETICA VALE DO PARACATU S/A
- ATA DA ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA REALIZADA EM 15 DE MAIO DE 2026 TRANSFORMADORES E SERVICOS DE ENERGIA DAS AMERICAS S.A.
- ATA DE REUNIÃO DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO REALIZADA EM 22 DE JANEIRO DE 2026 TRANSFORMADORES E SERVICOS DE ENERGIA DAS AMERICAS S.A.
- ATA DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA REALIZADA EM 22 DE DEZEMBRO DE 2025 TRANSFORMADORES E SERVICOS DE ENERGIA DAS AMERICAS S.A.
- ATA DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA REALIZADA EM 03 DE DEZEMBRO DE 2025 TRANSFORMADORES E SERVICOS DE ENERGIA DAS AMERICAS S.A.
- ATA DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA REALIZADA EM 08 DE MAIO DE 2026 TRANSFORMADORES E SERVICOS DE ENERGIA DAS AMERICAS S.A.
Ouça a rádio de Minas