Para Aldemir Drummond, a pandemia acelerou processos de digitalização da gestão dos programas de educação | Crédito: Leo Drummond/Nitro

Crianças em casa, falta de equipamentos e acesso à internet, os dias passando, a formatura sem data, o Enem chegando…e, de repente, aquelas folguinhas eventuais tão bem-vindas se tornaram um problema na vida de alunos, professores e pais. Mesmo os estudantes universitários, acostumados a controlar o próprio tempo, se viram cheios de insegurança.

A pandemia causada pelo novo coronavírus atingiu a educação em cheio. De uma hora para outra, professores que nunca receberam formação para a atividade estavam na frente dos celulares se virando em videoaulas, alunos com deslocamento restrito – como parte da política de combate ao alastramento da doença -, sem ter como assistir aulas remotas, pais solicitando desconto nas mensalidades, donos de escola com medo de fechar, entre outros tantos fatos inéditos, se transformaram em um caos.

O certo é que desse presente caótico e desesperador para a maioria surgirá um novo normal. E essa nova realidade vai precisar de gestores e, especialmente, líderes. Ao mesmo tempo que a sociedade se apavora com o crescimento do desemprego, as empresas não deixam de contratar.

Nos estratos mais altos da gestão corporativa os desafios se acumulam agora na fase aguda da crise e isso não deve se tornar mais fácil no pós-crise, mesmo no longo prazo. Se os processos de admissão e demissão no Brasil sempre foram caros, agora podem afetar seriamente a planilha de custos quando mal realizados. Em um cenário descapitalizado como deve ser o período de recuperação da crise, errar a contratação de um executivo pode causar um grave prejuízo muito além do financeiro para a empresa.

Hoje, o DIÁRIO DO COMÉRCIO, nessa série especial, fala do “Novo Normal” da educação e das contratações de alto escalão.

Metodologia atual está com os dias contados

A impossibilidade de os estudantes irem às escolas durante a pandemia causada pelo novo coronavírus quebrou um modelo secular de ensino e trouxe para a esmagadora maioria das pessoas a perspectiva da educação à distância. Embora não seja recente – se faz educação a distância desde quando isso acontecia via correios – o modelo era ainda visto com muita desconfiança. Sem outra possibilidade, escolas, alunos e pais se renderam. A opção, porém, na visão dos especialistas, ainda deve passar por muitos ajustes.

Para o cofundador e diretor da Sistema Faculdade, Gustavo Henrique de Almeida, é preciso, primeiro, diferenciar educação remota e educação a distância. A Sistema Faculdade é uma plataforma de ensino a distância que atende escolas e pessoas físicas que querem ofertar ensino a distância. A demanda pelo sistema da empresa aumentou mais de 100% a partir da implantação de medidas de isolamento social no Brasil.

“A educação a distância é pensada para ser assim, existe uma metodologia com recursos diversos e interação através de tutores. Nela o aluno estuda quando quiser. O que estamos vendo acontecer muito com a pandemia é algo distinto: a educação remota. Por ela, nos mesmos dias e horários, o aluno tem aula via web. Essa aula não foi pensada, modelada para isso. A partir dessa distinção é que podemos pensar no pós-crise. Acredito no futuro da educação a distância. Alunos e escolas que agora experimentaram o modelo e viram que ele dá certo poderão fazer essa opção no futuro. Boa parte deve migrar porque o modelo promove economia de tempo e dinheiro, mas não é uma solução mágica ou única. Existem situações em que a educação presencial é indispensável”, explica Almeida.

O alerta da professora-associada da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FAE/UFMG) Analise da Silva caminha no mesmo sentido: o uso da tecnologia a serviço de uma educação de qualidade e inclusiva.

“Não podemos permitir que um recurso seja usado nas brechas de um certo imediatismo sem levar em conta a responsabilidade social. As necessidades de alunos e professores não serão supridas pelo uso exclusivo da tecnologia. Como não temos a cultura de formar professores para trabalhar as tecnologias digitais, acabamos confundindo as coisas. Tem gente entendendo que educação à distância é filmar aula e colocar na internet. Existe metodologia própria para isso. O novo normal vai demandar que tenhamos turmas em que os estudantes mantenham a distância segura, estejam em rodízio nas escolas, com dias e horários alternados, que os professores sejam formados para isso. Vamos precisar de mais condições físicas, pedagógicas e psicológicas. É um novo jeito de fazer. Vamos precisar pensar na educação como pilar do desenvolvimento, falando na perspectiva coletiva e do País”, avalia Analise da Silva.

Na outra ponta está a Fundação Dom Cabral (FDC), considerada a nona melhor escola de negócios do mundo pelo ranking do jornal britânico “Financial Times”, publicado no início de maio. Dedicada, tradicionalmente, aos executivos de alto escalão, a FDC também prevê um novo normal para os seus programas de educação e para o setor educacional como um todo.

Segundo o vice-presidente executivo da FDC, Aldemir Drummond, a pandemia acelerou processos de digitalização da gestão dos programas de educação.

“A crise acelerou coisas que já trabalhávamos, particularmente a educação a distância e a combinação de atividades presenciais e a distância. A alteração mais interessante nem é a mudança da escola como instituição, mas dos alunos e professores. Muita gente não acreditava no ensino a distância, mas experimentou e teve um retorno positivo. Isso acontece tanto em cursos abertos como in company. Isso, porém, não exclui o valor de atividades presenciais. Estamos descobrindo novas formas e isso vai ter um efeito nas ofertas. Estamos realmente investindo na percepção do papel social da instituição. Queremos ter uma atuação mais forte na base da pirâmide. É uma outra lógica e a tecnologia ajuda nisso, mas, ao mesmo tempo, precisamos pensar em parcerias porque muitas pessoas que queremos alcançar não têm acesso à internet”, pontua Drummond.

TI apoiará processos admissionais

Para muitos, falar em contratações em meio à maior crise sanitária e econômica mundial dos últimos 100 anos pode parecer estranho, porém, antecipar cenários futuros é uma das estratégias fundamentais para toda empresa que quer chegar preparada ao período de recuperação. Executivos continuam sendo admitidos e demitidos pelas empresas e esse processo, especialmente agora, não admite erros.

A necessidade de enxugamento da folha vai impor aos gestores novas e mais responsabilidades. Para o diretor-executivo da Tailor, Bruno da Matta Machado, o Covid-19 evidenciou qualidades e defeitos da nossa sociedade e a verdade por trás das empresas nunca foi tão clara e nunca interessou tanto aos parceiros e consumidores.

“As empresas vão ter que mostrar que têm um propósito legítimo. Estou encantado de o espírito empreendedor liderando grandes projetos. As empresas que vão sair mais fortes no final da crise são aquelas que estão agindo mais preocupadas em impactar a sociedade do que em vender. E quem faz isso são os executivos. Contratar e reter executivos realmente alinhados com os valores da empresa vai ser fundamental no período de recuperação. Esses executivos precisam de velocidade na tomada de decisão. Não precisam fazer nada revolucionário, precisam acertar nas pequenas ações”, defende Machado.

A CEO da Sólides, Mônica Hauck, destaca o crescimento pela busca de talentos dentro das próprias empresas a partir da crise, como já é característico de momentos assim.

“Teremos uma dupla jornada ao final da fase aguda da crise porque a economia não estará aquecida. No mercado de contratações teremos uma recessão, porém, no lado da gestão de pessoas haverá um aumento da demanda de treinamentos e desenvolvimento na busca da melhoria da eficiência operacional. Se eu não posso contratar, preciso desenvolver as pessoas que estão comigo”, destaca Mônica Hauck.

A digitalização dos processos de contratação no novo normal também já se anuncia. O processo, que já vinha acontecendo, mas deve tomar grande impulso no pós-crise. O “olho no olho”, porém, não deve desaparecer, especialmente em mercados mais conservadores como o mineiro.

“Nos processos de seleção teremos um uso maior de indicadores e diminuição da subjetividade. A tecnologia ajuda muito nesse sentido e a seleção pode ser feita remotamente. Isso tende a melhorar a qualidade do processo. Na própria Sólides contratamos dois head hunters e, um deles, eu ainda não encontrei pessoalmente. Isso tem funcionado, mas é preciso metodologia adequada para que dê certo”, alerta a CEO da Sólides.

“Os processos de contratação tendem a ficar muito mais tecnológicos. A peneira digital é maior e rápida. Isso traz novas opções sem excluir o que já existia. Ainda acredito que posições de alta liderança vão precisar de “olho no olho” para se fechar o acordo, mas, sem dúvida, vamos utilizar mais dados e de uma maneira muito mais eficiente”, completa o diretor-executivo da Tailor.

A aposta é que o uso da tecnologia para esses fins seja acessível, inclusive, para as empresas menores ou ainda em desenvolvimento. Na medida que são elas as responsáveis pela maior parte de tudo que é produzido no País e pelos empregos formais gerados, isso seria um grande ganho para a economia nacional.

“Temos no nosso imaginário ainda a ideia que automatizar processos é muito caro. Hoje a aquisição da tecnologia é uma coisa barata. E é bem mais barata a tecnologia que realizar um processo falho. O custo é muito mais uma questão da cultura que do preço. Teremos uma realidade no curto prazo de muita dor. Mas se bem gerida, a crise pode fazer nossas empresas funcionarem com muito mais eficiência. Vamos nos adaptar ao novo normal. Eu acredito na capacidade de adaptação do ser humano e da economia. E a economia, nada mais é, do que todos nós trabalhando”, afirma Mônica Hauck.