Inflação além da média
Você sabia que o câmbio e as expectativas influenciam o nível de preços de forma diferente, dependendo do patamar em que a inflação já se encontra? Ao analisar a economia brasileira por meio de modelos tradicionais, somos levados a supor relações lineares e comportamentos previsíveis como a ideia de que “um dólar elevado sempre pressiona a inflação”.
Na prática, porém, a dinâmica é bem mais complexa e, sobretudo, assimétrica. O impacto de um choque cambial ou a persistência inflacionária não são constantes, eles variam conforme o estágio em que a economia se encontra. Neste texto, tento explorar essa questão com base em um estudo mais técnico que desenvolvi recentemente.
O método que implementei, utilizando o que chamamos de regressão quantílica, nos mostra que os determinantes da inflação operam sob regimes distintos. É como se a economia fosse um motor que reage de maneira diferente conforme a temperatura. Quando a inflação está baixa e sob controle, o sistema possui uma capacidade de absorção relevante. Isso fica evidente no repasse cambial: em períodos de calmaria, uma alta no dólar raramente se traduz em um aumento imediato nos preços ao consumidor, já que as empresas tendem a sacrificar margens para preservar participação de mercado.
Esse quadro, contudo, muda à medida que a inflação atinge quantis superiores, ou seja, as camadas mais altas da distribuição. Nesse ambiente, a complacência desaparece. Diante de custos já pressionados, o empresário perde espaço para absorver novos choques e passa a repassar a variação cambial com uma intensidade que a média simplesmente não capta.
Essa assimetria se estende à inércia inflacionária, a famosa “memória” dos preços. No Brasil, o peso do passado sobre o presente se intensifica à medida que a inflação ganha força. Em regimes de inflação elevada, a viscosidade dos preços aumenta, tornando o trabalho do Banco Central ainda mais desafiador. Em um ambiente de desconfiança, as expectativas deixam de ser mero ruído e passam a atuar como o principal motor da inflação. O descolamento dessas expectativas é, em essência, um fenômeno de cauda: emerge justamente quando a autoridade monetária mais precisa preservar sua credibilidade.
Ignorar essas nuances pode levar o formulador de política a agir “atrás da curva”. Ao basear suas decisões, especialmente sobre a taxa de juros, apenas no comportamento médio das variáveis, o regulador corre o risco de subestimar pressões que já se acumulam nos extremos da economia. Por isso, a análise contemporânea exige atenção redobrada aos riscos de cauda.
Em última instância, compreender que o câmbio penaliza mais intensamente economias já pressionadas, e que a inflação elevada se ancora em uma inércia mais persistente, é essencial para qualquer diagnóstico mais acurado. A média, muitas vezes, funciona menos como síntese e mais como um véu que encobre a incerteza.
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