A força coletiva do Vale dos Vinhedos, a primeira Denominação de Origem do Brasil
Por uma estrada sinuosa, entre colinas e vales cobertos por parreirais, o grupo chegou à vinícola Torcello, onde representantes de diversas vinícolas da Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale) aguardavam para uma degustação da primeira Denominação de Origem reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) no Brasil.
Aos 31 anos, a Aprovale reposicionou sua marca para fortalecer o Vale dos Vinhedos como um território único, que integra os municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul.
Mesmo antes da primeira taça, o cenário, com raízes na imigração italiana, já conquista quem chega. As espaldeiras desenham linhas pelas encostas, emolduradas por construções de arquitetura tradicional e contemporânea.
O trabalho coletivo foi fundamental para o reconhecimento oficial da região. Em 2002, o Vale tornou-se pioneiro no país ao receber a Indicação de Procedência. Dez anos depois, conquistou a Denominação de Origem. Hoje, reúne 32 vinícolas, entre outros estabelecimentos que giram em torno do enoturismo, uma enorme porta de entrada para o consumo de vinhos.
A Indicação Geográfica reconhece produtos ligados a um território. No Brasil, divide-se em Indicação de Procedência (IP), baseada na reputação da região, e Denominação de Origem (DO), que exige relação direta entre as características do produto e fatores locais, seguindo regras mais rigorosas.
Isso significa que um vinho com Denominação de Origem é melhor? Não exatamente. Mas ajuda o consumidor a compreender o que está na garrafa, já que os produtos compartilham características em comum.
Não à toa, a Merlot dominou a degustação na Aprovale. Foi a variedade tinta que apresentou os resultados mais consistentes ao longo do tempo e acabou se tornando a representante oficial da DO. Também são permitidas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Tannat. Entre as brancas, a certificação contempla Chardonnay e Riesling Itálico. Já nos espumantes, a Pinot Noir pode ser utilizada.
Entre as taças servidas, tivemos dois rótulos da Alma Única: um Chardonnay 2024, maturado por 12 meses em barricas francesas de primeiro e segundo uso, além de um elegante Merlot, safra 2020. A novata Valhalla mostrou seu Merlot varietal (safra 2022), que revelou o mentol característico do Vale.

Ainda tivemos o Três Dons Merlot 2020, apresentado por Lucas Brandelli, da Don Laurindo. Elaborado com a ambição de criar um vinho capaz de envelhecer por mais de 30 anos, passou 24 meses em carvalho. O resultado é uma combinação de notas de cravo, canela, pimenta, eucalipto, frutas negras e geleia, equilibradas por um delicado toque de fruta fresca.
Da anfitriã Torcello, provamos o Perfetto, varietal da casta Ancellotta, safra 2022, com acidez vibrante e taninos macios.
Ao fim da conversa, veio o vinho coletivo, elaborado a partir de dez lotes diferentes. Um brinde que resume toda a mensagem daquele encontro: território, história e colaboração.
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