Economia para Todos

O impulso de crédito: parte 1

Mais do que observar o crescimento do crédito, é preciso analisar se ele cresce mais rápido ou mais devagar do que antes

Quando se fala em crédito, a interpretação mais comum é intuitiva: quanto mais empréstimos circulando na economia, maior tende a ser o crescimento. Afinal, famílias consomem mais, empresas investem mais e a atividade econômica ganha tração. No entanto, um estudo publicado em 2010 por Michael Biggs e seus colegas, sugere que essa leitura está incompleta.

Segundo os autores, o verdadeiro motor da atividade não é o estoque de crédito existente, mas a velocidade com que novos empréstimos estão sendo adicionados à economia. Não basta observar se o crédito cresce, é preciso analisar se ele cresce mais rápido ou mais devagar do que antes. Daí que surge o conceito de “impulso de crédito”.

Imagine uma família que, durante vários meses, complementa sua renda com R$ 1.000 mensais tomados no cartão de crédito. Esse dinheiro adicional amplia seu poder de compra e beneficia o comércio. Se, no mês seguinte, ela continuar se endividando, mas em apenas R$ 500, o estoque de dívida continuará aumentando. Ainda assim, haverá menos dinheiro novo entrando na economia. Para os comerciantes, isso já representa uma desaceleração.

O mesmo raciocínio vale para empresas e governos. O que impulsiona a demanda agregada não é a dívida acumulada, mas o fluxo incremental de recursos que os novos empréstimos colocam em circulação. Quando esse fluxo perde intensidade, a atividade tende a perder fôlego, mesmo que o volume total de crédito permaneça em expansão.

Foi justamente essa percepção que levou Biggs e seus coautores a desenvolverem o indicador de impulso de crédito, definido como a variação do fluxo de novos empréstimos em relação ao PIB. A evidência empírica mostrou que esse indicador possui forte correlação com o crescimento econômico e costuma anteceder os movimentos do PIB.

No Brasil, o comportamento recente do crédito merece atenção sob essa ótica. Durante a pandemia, programas emergenciais e linhas subsidiadas provocaram uma explosão do impulso de crédito, contribuindo para a rápida recuperação da atividade em 2021. Posteriormente, a combinação entre juros elevados e normalização das condições financeiras reduziu gradualmente esse impulso.

Hoje, o crédito continua crescendo em termos absolutos. Entretanto, cresce em ritmo menor do que há alguns trimestres. Pela lente do impulso de crédito, menos crédito novo entrando na economia significa menor estímulo ao consumo e ao investimento, mesmo que o estoque total de financiamentos continue aumentando.

Essa distinção é particularmente importante em um momento em que muitos indicadores ainda transmitem uma sensação de resiliência econômica. O impulso de crédito sugere cautela. Afinal, os ciclos econômicos costumam mudar de direção não quando o crédito para de crescer, mas quando sua capacidade de acelerar a demanda começa a se esgotar. E, frequentemente, esse processo torna-se visível apenas quando a desaceleração já está em curso.

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