Giro pelo mundo

Da realidade do tarifaço e a nossa fraqueza

Medida dos Estados Unidos afeta o País, mas principalmente as nossas empresas
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00

A discussão sobre o tarifaço dos EUA virou, após a fragorosa derrota da nossa seleção na Copa, esporte nacional. A quantidade de especialistas que surgiram, que nunca produziram um prego e muito menos exportaram algo, a não ser os que foram à Disney, é impressionante. E o tema virou debate entre políticos pretendendo ter cargos mais altos, sem enquadrar o tema no seu programa de governo sob o título de desenvolvimento e política externa com ênfase nas relações econômicas. Se a decisão norte-americana foi política, com efeitos econômicos, mesmo tendo exceção para 2.300 itens, então a resposta, assim pensam os sábios por aqui, tem que ser política.

Nas crises é sempre mais fácil achar um adversário e culpá-lo do que analisar a situação e resolver. Culpar Trump, que sim quer ter domínio sobre o Brasil, unificar a América Latina sob batuta dele, é parte do nosso problema. Aliás, a política dele não é nenhuma novidade, nem as suas atitudes. Tenho minhas dúvidas sobre quantas pessoas no Brasil leram o último livro da repórter do NYT, Maggie Haberman, Regime change, que explica bem como funciona o governo americano. E veja o caso do Canadá, que levou mais tarifas estes dias. E mais, vamos nos perguntar quanto de fato somos importantes para os EUA, que no momento tem conflitos no Oriente Médio, Ucrânia etc.

O tarifaço afeta o País, mas sobretudo afeta as empresas. E quanto à retaliação, é só lembrar uma velha verdade comercial: com freguês não se briga, pincipalmente se ele é mais forte do que você. E alguém tem dúvida sobre quem é o cliente e o seu tamanho? Estamos sendo enganados pela discussão do governo e da oposição sobre o assunto. O debate deve ser sobre a nossa base produtiva e sua capacidade de competir nesses cenários. Agro em dificuldades financeiras e com El Niño batendo na porta. Indústria pouco competitiva e juros nas alturas, além do real supervalorizado. Resolver situações como essas com empréstimos e juros altos é piorar a situação.

Diversificação dos mercados, nos quais, através da Apex, se investem bilhões, depende do esforço das empresas, não só dos acordos e da ação governamental. Se os produtores de mel resolvem vender 85% de sua exportação para um cliente só, devem também assumir o risco. Uma tonelada de mel custa 3.350 dólares e de aço, 600. O governo na crise pode ajudar, mas a chave está na empresa. Nossas empresas, claro há exceções, são mais motivadas para exportar pelos compradores do que por uma estratégia de expansão. Aliás, estamos vivendo também essa situação com a China. E com a diversificação tem-se que desenvolver a marca Brasil, perdemos no café, e marcas dos próprios exportadores. E aí, só a longo prazo e com muito investimento e trabalho. Menos politicagem e lágrimas e mais suor com trabalho.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Stefan Salej

Ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), empresário, analista da política internacional e presidente da Slovenian Global Business Network.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas