Tarifa sem fundamento
Os Estados Unidos anunciaram quinta-feira uma nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, somada em parte das exportações à tarifa de 25% já em vigor. A justificativa de Washington, de que o Brasil não adotaria mecanismos suficientes contra o trabalho forçado na cadeia produtiva, não resiste a exame mínimo dos fatos. O País é signatário dos principais instrumentos da OIT e mantém política consolidada de fiscalização e acolhimento a vítimas de trabalho escravo. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços classificou a medida como indevida. É difícil discordar.
O problema não é apenas retórico. Setores inteiros da indústria brasileira, entre eles calçados, máquinas, equipamentos, peças e produtos químicos não farmacêuticos, passam a enfrentar tarifação acumulada de 37,5%. Trata-se de patamar que compromete a competitividade dessas cadeias no mercado americano e já provoca movimento de empresas em busca de mercados alternativos.
Para Minas Gerais, o tema não é abstrato. O Estado tem participação relevante em cadeias industriais diretamente afetadas, da metalurgia aos bens de capital, e qualquer deterioração no comércio bilateral repercute em emprego e investimento local. O acompanhamento da lista de produtos duplamente tarifados, ainda incompleta, deveria ser prioridade também para lideranças empresariais mineiras.
O governo brasileiro fez a escolha correta ao priorizar a via negociada. Romper unilateralmente o diálogo com Washington antes de esgotar essa possibilidade seria custoso e precipitado. Mas priorizar negociação não significa abrir mão de instrumentos legítimos. A Lei de Reciprocidade Econômica existe exatamente para situações como esta, e mantê-la disponível é prudência, não hostilidade.
Ao mesmo tempo, é preciso realismo quanto aos prazos. O levantamento dos impactos setoriais ainda está em curso, e as conversas com autoridades americanas só devem ser retomadas no mês seguinte. Esse intervalo não pode significar inércia. É o momento de o Brasil Soberano cumprir seu papel de amparo, com agilidade na análise de crédito e clareza sobre setores prioritários.
Há ainda uma dimensão que merece atenção redobrada: depender excessivamente de um único parceiro comercial expõe qualquer economia a decisões unilaterais como esta. A diversificação de mercados de exportação deixa de ser estratégia de longo prazo e se torna urgência concreta.
O Brasil está certo em contestar uma tarifa construída sobre premissas sem respaldo nos fatos. Mas contestar bem exige preparação técnica, jurídica e diplomática, não apenas indignação legítima.
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