Plano Geral

Anarquia e esgotamento da fórmula marcam o retorno de ‘Todo Mundo em Pânico’ aos cinemas

Filme abraça o cinismo da repetição

Diante de uma Hollywood obcecada por reconfigurar seus próprios mitos com reboots e refilmagens, o novo “Todo Mundo em Pânico” abraça o cinismo da repetição. Na tela, o que se vê é o mais puro exercício de reciclagem industrial que resgata a cartilha escatológica da franquia, limpa o pó das piadas de época e reúne o clã original para voltar a operar na mesma frequência. É o triunfo do pastiche nostálgico, repetindo, com precisão cirúrgica, a mesma piada de 26 anos atrás.

Durante mais de uma década, o bom senso sugeria ser impossível conceber que “Todo Mundo em Pânico” recuperasse o verniz de relevância de antes. O exílio dos irmãos Wayans, diretores do primeiro longa, cobrou seu preço: as sequências subsequentes, comandadas por outros cineastas, diluíram a identidade da grife, rebaixando a franquia a piscadelas cansadas da cultura pop e esquetes desconexos.

A premissa nos devolve o quarteto original, Cindy, Brenda, Shorty e Ray. Eles voltam a figurar na mira do mesmíssimo Ghostface, que agora estabelece uma meta contemporânea: “acabar com a cultura do cancelamento”.

O espectador, a essa altura, já está cansado de saber que seu ingresso vai exigir a renúncia à seriedade. O que o roteiro nos oferece é um mero compilado de almanaque, de tudo o que colonizou as redes, as telas e os noticiários, empacotados como entretenimento. As sátiras, contudo, não se limitam aos fenômenos do cinema de terror. Ao longo de implacáveis 95 minutos, o longa atira para tudo quanto é lado: sobram petardos sobre o movimento #MeToo, o OnlyFans, a invasão do Capitólio e a nova fauna de streamers. Há espaço para os relatórios Epstein, a “machosfera”, as cotas raciais e o debate sobre pronomes neutros, sem esquecer, claro, do ChatGPT e dos resquícios da Covid-19.

Surpreendentemente, as sátiras a filmes funcionam. O longa mira em produções recentes do terror como “A Substância”, “A Hora do Mal”, “Premonição” e “Terrifier 3”, além de franquias como “John Wick” e até as pobres “Guerreiras do K-Pop”.

Talvez o grande mérito da produção resida justamente em sua anarquia, tanto estrutural quanto cômica. O roteiro sabe muito bem que a narrativa é apenas pretexto para conectar uma avalanche de referências e situações absurdas. Convém lembrar que a saturação daquelas características do terror adolescente era justamente o que fazia a comédia funcionar lá atrás.

Ao contrário do longa original, que equilibrava sátira e narrativa, esta nova versão prefere amontoar ideias a desenvolver uma história, deixando o elenco à deriva. O esgotamento dessa fórmula cobra seu preço na reta final, quando o filme passa a depender exclusivamente de temas saturados para sustentar sua duração, elegendo os dilemas geracionais como alvo preferencial. Há, naturalmente, momentos engraçados, mas há muitas ocasiões em que o filme parece uma banda tocando seus maiores sucessos para uma plateia que já conhece de cor e salteado todas as músicas.

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