Vinho da Casa

Na Europa, vinho integra a rotina e escapa da lógica do luxo

Há estilos ligados à cultura de cada região, como os rosés, símbolo da conquista trabalhista das férias remuneradas

Após um incêndio no prédio em que vivi por um ano em Canet-en-Roussillon, vizinha a Perpignan, no sul da França, fui levada para um abrigo da prefeitura. Durante duas semanas, fiz minhas refeições, à mesa, com os vizinhos também desalojados. Aprendi ali muito sobre a comida e hábitos alimentares do francês médio. Entre as principais lições, uma jarra de vinho, no almoço e no jantar, é “direito” de todo cidadão. Gostei daquilo!

Naquela região, onde o vinho é produzido em abundância — alguns de excelente qualidade, como o vin doux naturel —, o consumo segue outra lógica. É comum comprar do produtor, muitas vezes direto dos tonéis, por litro, baratíssimo. O cliente entrega a garrafa pet vazia e traz cheinha de Merlot. Ou de Grenache, Syrah, Cabernet Sauvignon. Senhorinhas circulam pela cidade com carrinhos de feira cheios de garrafas para encher nas caves. O vinho, ali, é rotina.

Essa naturalidade não nasceu ontem. Durante a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, o vinho ganhou uma dimensão importante no cotidiano dos soldados. Em 1914, ainda não era a bebida mais consumida — no norte e no oeste, preferia-se sidra, cerveja e aguardentes. Mas o excedente de produção após a crise da filoxera ajudou a levá-lo às trincheiras.

Pouco a pouco, ele se institucionalizou: o Estado passou a garantir uma ração diária aos soldados, que aumentou, em 1916, para meio litro. Em 1918, um litro por dia. Tornou-se conforto e energia.

Hoje, essa relação segue viva, ainda que existam regras mais rígidas. O vinho continua presente à mesa, mas também está submetido às políticas de saúde pública, às restrições de venda e às regulações que atingem outras bebidas alcoólicas.

Ainda assim, em boa parte da Europa, ele escapa da lógica do luxo. Na Espanha, é classificado como alimento. Em Portugal e na Itália, permanece como parte estrutural das refeições. E, de forma geral, a União Europeia o define como produto agrícola.

É nesse clima — e em celebração ao Dia do Trabalho — que faz sentido olhar para a Provence, onde o vinho rosé encontra sua máxima expressão. Foi ali, à beira-mar, que trabalhadores franceses passaram a ocupar as praias a partir de 1936, quando as férias remuneradas foram instituídas, marcando um momento decisivo na história dos direitos trabalhistas.

Garrafas de vinho rosé francesas
Foto: Reprodução

Importados pela Épice, o clássico “Domaines Ott By Ott Côtes de Provence Rosé 2022”, da casa fundada em 1896, é elegante e refinado, com notas delicadas e frescor. Já o espanhol “Flor de Muga Rosé 2024” ganha mais estrutura e vocação gastronômica, que carrega a tradição de Rioja. Da Itália, vem o equilíbrio entre fruta e elegância do “Il Borro IGT Rosato 2021”, da Toscana.

E há ainda os portugueses, como o “Rapariga da Quinta Rosé 2023” com frescor e muita fruta em uma leitura moderna do Alentejo, enquanto o “Bacalhôa Serras de Azeitão Rosé Syrah 2023”, da Península de Setúbal, aposta numa leve picância. Para fechar, o “Mateus Rosé”, que atravessa gerações e ainda cumpre seu papel com uma certa nostalgia.

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