Interior de Minas impulsiona expansão das franquias brasileiras, afirma presidente da ABF

Em entrevista ao Diário do Comércio, Tom Moreira Leite afirma que cidades médias devem impulsionar o crescimento do setor; inteligência artificial e inovação serão decisivas para a competitividade até 2030
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Com faturamento estimado em R$ 5,8 bilhões no primeiro trimestre deste ano, alta de 3,75% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o mercado de franquias em Minas Gerais deve continuar pujante nos próximos anos.

Para o presidente da (ABF), Tom Moreira Leite, a economia diversificada de Minas Gerais, a forte cultura empreendedora e a dimensão territorial do Estado favorecem a interiorização das redes e a expansão de novos negócios. Nesse contexto, cidades médias mineiras têm se destacado pela combinação de renda, infraestrutura e potencial de consumo, atraindo investimentos de diferentes segmentos.

Na entrevista a seguir, o dirigente analisa o desempenho recente do franchising, os desafios impostos pelos juros elevados e pela complexidade tributária, o avanço da inteligência artificial nas redes e as perspectivas para o setor até 2030. Também comenta o papel de Belo Horizonte e de Minas Gerais como potenciais polos de inovação em áreas como alimentação, saúde, educação e tecnologia.

Minas Gerais está entre os maiores mercados consumidores do País e possui forte tradição empreendedora. Na avaliação da ABF, qual é o papel estratégico do Estado no crescimento do franchising brasileiro e quais segmentos ainda apresentam maior potencial de expansão?

Minas Gerais é um estado que ocupa posição estratégica dentro do franchising brasileiro por reunir características bastante favoráveis ao desenvolvimento das redes. Temos observado um movimento muito forte de interiorização das marcas e o Estado concentra o maior número de municípios do País, 853. Ainda neste sentido, no último ranking da ABF que lista as 30 cidades que mais cresceram em termos de faturamento percentual, Uberlândia ocupa a 14ª posição (9,86%). O Estado conta com uma economia diversificada, forte cultura empreendedora, grande mercado consumidor e um número expressivo de cidades médias com elevado potencial de expansão. Entre os segmentos que apresentam perspectivas bastante positivas destacam-se alimentação, saúde, beleza e bem-estar, educação, serviços especializados, conveniência, limpeza e conservação, acompanhando tendências observadas nacionalmente. Também acreditamos que negócios ligados à tecnologia e aos serviços empresariais tendem a ganhar cada vez mais espaço.

Muitas redes têm escolhido cidades médias do interior mineiro para expandir suas operações. Esse movimento deve ganhar força nos próximos anos? O que torna essas cidades tão atrativas para as franquias?

Esse é um movimento que já observamos há alguns anos e que tende a se intensificar. As cidades médias apresentam uma combinação bastante interessante: crescimento populacional, melhoria da renda, desenvolvimento do comércio local, custos operacionais mais competitivos e consumidores cada vez mais interessados em marcas reconhecidas nacionalmente.

Além disso, o avanço da infraestrutura, da conectividade e da logística reduziu significativamente as barreiras para expansão das redes. Hoje muitas cidades do interior possuem características de consumo bastante semelhantes às grandes capitais. Para o franchising, isso representa uma excelente oportunidade de crescimento sustentável, levando produtos, serviços e geração de empregos para mercados que ainda possuem espaço para novas operações.

Belo Horizonte e Minas Gerais podem se tornar um polo nacional de inovação em franchising, especialmente em áreas como food service, saúde, educação e tecnologia? O que falta para isso acontecer?

Eu diria que Minas Gerais já reúne diversos atributos para exercer esse papel. O Estado possui universidades de excelência, um ambiente empreendedor bastante ativo, empresas inovadoras, polos tecnológicos em expansão e um mercado consumidor relevante. Esses fatores criam condições favoráveis para o desenvolvimento de novos modelos de negócios. Para acelerar esse processo, é importante fortalecer ainda mais a conexão entre universidades, startups, redes de franquias, investidores e centros de inovação. O avanço da transformação digital, da inteligência artificial e da automação cria oportunidades para que Minas Gerais desenvolva soluções que possam ser replicadas em todo o País. O franchising brasileiro sempre evoluiu muito pela troca de experiências e pela capacidade de transformar boas ideias em modelos escaláveis e o Estado reúne condições para contribuir de maneira significativa nesse processo.

Com crescimento de 10,1% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025 e faturamento de R$ 72,7 bilhões, o franchising brasileiro demonstra resiliência mesmo diante das turbulências macroeconômicas. Quais são os maiores desafios para manter esse ritmo nos próximos anos e onde estão as principais oportunidades de expansão?

O desempenho do primeiro trimestre reforça uma característica importante do franchising brasileiro: sua capacidade de adaptação. Estamos falando de um setor bastante diversificado, presente em praticamente 70% dos municípios brasileiros, que consegue responder rapidamente às mudanças de comportamento do consumidor e às demandas do mercado. Esse crescimento de 10,1% mostra justamente essa resiliência.

Naturalmente, os desafios permanecem. O cenário de juros elevados, restrição ao crédito, pressão sobre custos operacionais e um ambiente tributário ainda complexo exigem das redes ganhos constantes de eficiência. Ao mesmo tempo, a transformação digital e a necessidade permanente de inovação passaram a ser fatores estruturais para a competitividade. Em contrapartida, as oportunidades continuam promissoras. Observamos espaço para expansão em cidades médias e no interior do País, crescimento de segmentos ligados à conveniência, beleza e bem-estar, alimentação, saúde e serviços especializados, além do fortalecimento de modelos mais flexíveis e da incorporação de tecnologias que aumentam a produtividade das operações. O franchising continuará crescendo porque consegue combinar marcas consolidadas, empreendedorismo local e capacidade de inovação.

O que mais preocupa, hoje, os franqueadores brasileiros e quais medidas poderiam acelerar o crescimento do setor?

O principal desafio continua sendo construir previsibilidade para que empresas e investidores possam planejar seus negócios a médio e longo prazo. Juros elevados encarecem o crédito tanto para expansão das redes quanto para novos investidores. Além disso, insegurança jurídica e complexidade tributária exigem grande capacidade de gestão das empresas. Acreditamos que medidas voltadas à simplificação tributária, estabilidade regulatória, ampliação do acesso ao crédito produtivo e estímulo ao empreendedorismo podem acelerar ainda mais o crescimento do franchising. É importante lembrar que estamos falando de um setor que gera aproximadamente cerca de 1,8 milhão de empregos diretos, ultrapassou 204 mil operações e está presente em praticamente todo o território nacional. Isso significa que fortalecer o franchising significa também fortalecer a economia local, estimular pequenos empreendedores e ampliar a geração de renda.

Em quanto tempo a inteligência artificial deixará de ser um diferencial para se tornar uma exigência competitiva no setor?

Esse movimento já está bem acelerado e vem ganhando cada vez mais protagonismo no cotidiano das franqueadoras. Na prática, as soluções permitem reduzir desperdícios, identificar tendências de consumo, otimizar investimentos, melhorar a experiência dos clientes e aumentar a eficiência operacional. Um dos diferenciais do franchising está na capacidade de democratizar o acesso à tecnologia. Isso significa que investimentos realizados pelas franqueadoras podem ser compartilhados entre centenas de unidades, possibilitando que pequenos empreendedores utilizem recursos que, em muitos casos, permaneceriam restritos a grandes corporações. A inteligência artificial ainda aparece como diferencial em algumas aplicações mais sofisticadas, mas em diversas atividades já caminha para se tornar uma ferramenta praticamente indispensável. Hoje vemos redes utilizando IA para melhorar o atendimento, marketing personalizado, análise de dados, seleção de pontos comerciais, treinamento de equipes, previsão de demanda e gestão operacional. Isso gera ganhos relevantes de produtividade, redução de custos e melhor experiência para consumidores e franqueados. Acredito que, nos próximos dois a cinco anos, a inteligência artificial deixará de ser percebida como inovação e passará a integrar naturalmente a operação das redes mais competitivas. O diferencial não será simplesmente utilizar IA, mas saber aplicá-la de forma estratégica, sempre preservando aquilo que continua sendo um dos maiores ativos do franchising: o relacionamento entre franqueador, franqueado e consumidor.

Qual a sua previsão para o franchising brasileiro até 2030? Quais redes crescerão mais e que perfil de empreendedor terá mais chances de sucesso?

Vejo um franchising ainda mais tecnológico, eficiente e diversificado. As redes que mais crescerão serão aquelas capazes de combinar inovação, gestão baseada em dados, experiência do consumidor, eficiência operacional e forte relacionamento com seus franqueados. Não acredito que haverá um único segmento que se destacará, mas sim empresas que consigam interpretar rapidamente as mudanças do mercado. Também veremos uma expansão mais intensa para cidades médias, maior integração entre canais físicos e digitais, uso cada vez mais intenso de inteligência artificial e operações mais sustentáveis. Quanto ao empreendedor, continuará tendo vantagem aquele que entende que franquia não é investimento passivo. O franqueado de sucesso será cada vez mais um gestor preparado, disposto a aprender continuamente, utilizar tecnologia, acompanhar indicadores e trabalhar em parceria com a franqueadora. O modelo continuará oferecendo segurança e suporte, mas o comprometimento do empreendedor seguirá sendo um dos principais fatores para o sucesso do negócio.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026

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