Como sua atitude na rua afeta seu trabalho
O caso envolvendo Pedro Benedito Casagrande, professor da UFMG, expõe um comportamento que ultrapassa qualquer noção de descuido ou erro momentâneo. Durante o carnaval, estacionou sobre uma faixa de pedestres e bloqueou a rampa de acessibilidade em frente ao restaurante Cozinha Santo Antônio, na região sul de Belo Horizonte, impedindo a passagem do marido cadeirante da chef Juliana Duarte e de sua cuidadora.
O que já era infração grave piorou quando, ao ser chamado para retirar o veículo, respondeu com ironia: “sou escroto, mas vou tirar o carro”. O ato criminoso veio quando ele retornou e debochou: “tchau cadeirante, espero que você ande muito por aí”. Como se já não bastasse, o professor volta ao restaurante tempos depois e dispara para a chef: “e aí, ele voltou a andar?” Depois, virou-se e saiu. Indignada, Juliana Duarte registrou um Boletim de Ocorrência e denunciou o caso nas redes sociais.
Estamos diante de dois fenômenos contemporâneos: a facilidade com que uma ocorrência de rua se torna notícia de relevância social e a lenta transformação da cultura em prol da inclusão social. O post sobre a ocorrência no Instagram do restaurante repercutiu e, em poucos dias, recebeu mais de 118 mil likes. A UFMG já se pronunciou e encaminhou o caso para a ouvidoria.
O vice-governador de Minas Gerais, Mateus Simões, se manifestou e disse que vai pedir o desligamento do professor de projetos governamentais. As reações afetam a reputação do professor, que tem um currículo considerável na área de mineração, e também fere a imagem da instituição de ensino.
Independentemente do que virá, o caso chama a atenção também para a pouca prática que temos nesse tipo de denúncia no país. De acordo com o estudo divulgado em 2024 pelo Brand Inclusion Index (BII) no Brasil, 66% das pessoas com deficiência (PCDs) afirmaram ter sofrido discriminação em 2023. Dados quanto ao número de registros e denúncias de discriminação contra PCDs são inconsistentes ou não consolidados.
Por isso, a denúncia e o registro da ocorrência feitos pela chef Juliana Duarte são tão importantes. Eles dão visibilidade a um comportamento que precisa ser debatido e responsabilizado, mostrando que existem caminhos e que a sociedade precisa ser mais incisiva com a discriminação, seja ela qual for.
Do ponto de vista comportamental e profissional, é fato que os dias do professor Pedro Casagrande serão impactados, pois um profissional que ocupa posição de formação e influência dentro de uma universidade pública revela, com esse tipo de atitude, valores profundamente incompatíveis com a ética, o respeito e a responsabilidade social que se espera de alguém em sua função. A UFMG publicou que apura o caso administrativamente em “observância dos ritos processuais e adoção de todas as providências cabíveis, na forma da lei”.
Lembramos que a imagem de um profissional é construída ao longo de anos, mas pode ser profundamente abalada por um único episódio. Atos de discriminação não são percebidos como falhas pontuais de comportamento, mas como indicadores de valores pessoais. Em um ambiente social cada vez mais atento a pautas de diversidade, equidade e inclusão, atitudes excludentes são vistas como incompatíveis com funções de liderança, docência ou representação institucional.
Do ponto de vista reputacional, o dano não se limita ao constrangimento público imediato e a um processo judicial. Ele pode resultar em perda de credibilidade acadêmica, fragilização de redes profissionais, restrição de convites para participação em projetos e eventos, e questionamentos quanto à capacidade de exercer funções que demandam responsabilidade social.
No campo institucional, universidades e organizações são pressionadas a demonstrar coerência entre seus códigos de ética e a conduta de seus representantes, sob pena de desgaste coletivo.
Na última sexta-feira (20), a Rádio Itatiaia divulgou que o professor se pronunciou e se desculpou. “O que fiz foi grave e inaceitável. Independentemente da repercussão do episódio, minha conduta foi errada e atingiu a dignidade de uma pessoa com deficiência e de seus familiares”, escreveu o professor. Casagrande pediu “perdão” à vítima e aos familiares e disse estar refletindo sobre o ocorrido. “Assumo integralmente a responsabilidade pela minha conduta e estou disposto a enfrentar todas as consequências administrativas e legais decorrentes do meu erro. Entendo que elas são justas. Ainda assim, o que mais tem pesado é a consciência do mal que provoquei”.
Casos como o do professor Pedro Casagrande evidenciam que a reputação, hoje, não é apenas resultado de competência técnica, mas de postura ética. Em tempos de alta exposição digital, o comportamento individual ultrapassa a esfera privada e se torna expressão pública de valores.
A mensagem que fica é clara: respeito e inclusão não são apenas virtudes morais, mas são critérios objetivos para diferenciar um profissional de outro.
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