Plano Geral

Dentro da baleia prova que o Jonas da Bíblia teve vida fácil

Trama apresenta um mergulho inesperado nas profundezas do mar, desafiando a lógica e revelando segredos sombrios
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Depois que o pai, mergulhador doente de câncer e desafeto de longa data, comete suicídio, o rapaz mete na veneta que precisa honrar o velho. A missão? Mergulhar nas profundezas para resgatar seus restos mortais e dar ao falecido um enterro digno.
Ignorando a física, a decomposição marinha e o bom senso, o sujeito se lança ao mar e, em menos de cinco minutos, é devorado por um cachalote gigantesco que emerge de uma fossa oceânica.

Armado com um cilindro de ar que mal sabe usar e uma água-viva que brilha no escuro a título de lanterna, o promissor Austin Abrams (Resident Evil) passa o filme sendo moído pelos movimentos peristálticos do bichão, escorregando por sua colossal faringe, banhando-se em suco gástrico e sangrando.

Os cenários gotejantes e claustrofóbicos são um triunfo da direção de arte que lembra o bom e velho Jonas bíblico. Preso em uma zona crepuscular meio sinistra, observamos nosso herói intentar uma frenética fuga do estômago de seu hospedeiro.

Sempre que a luta pela sobrevivência engata um bom ritmo, o filme interrompe a digestão cetácea para nos arremessar em flashbacks de dramalhão familiar. O pai (Josh Brolin, atuando no piloto automático) surge em visões metafísicas para pregar coragem a um filho que nem sequer teve coragem de abrir sua carta de despedida. Para piorar, o filme descamba para a manipulação baratíssima ao mostrar memórias em que o rapaz nem estava presente.

Mesmo que na linha de 127 Horas e Perdido em Marte, o roteiro não confia no nojo. As cenas no interior da baleia funcionam bem – até deixarem de funcionar. A adaptação do cineasta Brian Duffield do romance homônimo de Daniel Kraus simplesmente não tem conteúdo suficiente para preencher um longa.

Dito, pairam-me as indagações: seria possível reconhecer um corpo marinado por um ano em água salina? E de onde vem tanta obsessão em resgatar a memória de quem ele nem sequer consegue elogiar?

A metáfora, boba, é que o pai é a baleia, e o filho precisou fugir de casa para não ser esmagado pelo peso de suas expectativas, mas agora está se afogando em sua dor e culpa; uma colisão estranha entre um thriller de sobrevivência e a história de um filho tentando fazer as pazes com a perda de um pai profundamente falho.

Talvez o filme pudesse ter funcionado como uma história clássica, sei lá, de amadurecimento, onde um filho só compreende o peso da morte do pai. Mas tentar dar seriedade a uma premissa absurda rouba qualquer peso emocional.
Para tentar desfrutar do filme, eu estava disposto a deixar isso tudo de lado. Não rolou. Pena.

Pois é um enredo com o qual um Robert Zemeckis (diretor de Náufrago) faria maravilhas. É aquilo: um enredo com luto/trauma/arrependimento como um amplo tema central tornou-se tão batido que perdeu qualquer vestígio de originalidade.
No fim, a obra “naufraga” no próprio sentimentalismo, exigindo do espectador um estômago muito maior do que o do próprio mamífero.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Sobre o autor

Thiago Barcellos

Cineasta, crítico de cinema e mestre em artes. Pesquisa o cinema a partir das narrativas audiovisuais e de suas construções estéticas e afetivas, com foco na linguagem e na experiência do olhar.


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