A memória que a lama não soterrou ganha voz nas páginas de Helena Taliberti
“Eu sou uma atingida”. Assim Helena Taliberti começou a nossa conversa. Mesmo não sendo de Minas, ela sentiu intensamente as consequências do rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019. As toneladas da lama tóxica que desceram da mina Córrego do Feijão soterraram a única pousada no caminho e levaram quase toda a família dela. Naquele dia, morreram os filhos Camila, de 33 anos, e Luiz, de 31, a nora Fernanda, de 30, grávida do primeiro neto da família, além do pai biológico dos jovens e da madrasta.
“Foi minha família inteira. Sobramos meu marido Vágner, eu e minha irmã.”
“Eles estavam no lugar errado, na hora errada”. Os mais de sete anos de luto, luta e saudade são revelados no livro “Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes”, com lançamento marcado em Belo Horizonte, na terça-feira, dia 20, às 19h, na Livraria Quixote, na Savassi.
“Eu conto como é viver sem eles, para que a história não seja esquecida”.
A decisão de escrever nasceu da escuta e da urgência de impedir que a tragédia caia no vazio. Ao perceber como as pessoas reagiam e compartilhavam suas lembranças, Helena começou a fazer anotações no celular. Ao lado do marido, Vágner, pai de criação de Luiz e Camila, e de amigos dos filhos, ela já havia fundado, em julho de 2019, o Instituto Camila e Luiz Taliberti (https://somossementes.org.br/). A entidade atua em São Paulo para pautar o tema fora de Minas, onde a dependência econômica da mineração costuma anestesiar a indignação coletiva.
A força das mulheres
Ainda em 2019, em novembro, os parentes das 272 pessoas que morreram na tragédia criaram a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum), a quem Helena e Vágner se uniram. A mãe de Camila e de Luiz destaca uma força imensa que emergiu da luta contra a impunidade e pela preservação da memória das vítimas: a esmagadora maioria das lideranças que enfrentam a mineradora, cobram direitos e mantêm a memória viva é composta por mulheres. Na diretoria da associação, quase todos os cargos são ocupados por elas. Foi também a determinação de mulheres que viabilizou a construção da Fundação Memorial Brumadinho.
“A resistência é o principal. Todo dia 25 elas fazem um ato na entrada de Brumadinho. Eu acho isso maravilhoso. Eu estou aqui em São Paulo, mas todo dia 25 eu assisto, eu participo. Se você não se une, você não se fortalece. É muito verdadeiro que a união faz a força”.
O título da obra atualiza o lema histórico do movimento. Em vez de usar o verbo no passado, como no mote entoado pelas famílias das vítimas, “Tentaram nos enterrar, não sabem que somos sementes”, Helena Taliberti preferiu o tempo presente: “Tentam nos enterrar”. Porque o esforço dos culpados e cúmplices para apagar a tragédia é contínuo. Helena Taliberti faz questão de frisar que não escreveu apenas para seus filhos, mas para dar voz e honrar todas as 272 vítimas.
“A memória é o que traz essa imortalidade. E eu acho que uma sociedade que não tem memória não é uma sociedade completa. É preciso que as pessoas saibam o que aconteceu, lembrem-se do que aconteceu”.
Até mesmo para que isso não se repita.
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