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Fintechs: oxigênio em meio à crise

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Os percalços das pequenas e médias empresas para a obtenção de crédito não foram novidades dos tempos de pandemia. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) já mostravam, em 2019, que as taxas de juros muito elevadas eram um dos principais entraves enfrentados por 80% dos empresários que buscaram crédito de curto prazo. A segunda dificuldade apontada por eles foram os prazos reduzidos para o pagamento da dívida e, a terceira, a exigência de garantias reais.

Os processos repletos de trâmites, regras, obrigações e procedimentos – a chamada burocracia – também são fantasmas que sempre atrapalharam a vida das empresas que procuram crédito, prejudicando o cumprimento de obrigações imediatas (uma vez que, normalmente, este crédito é usado para atender a demandas de capital de giro).

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No auge da crise sanitária, a busca expressiva por linhas de crédito levou à sua escassez. Além disso, as negativas cada vez mais recorrentes por conta de pendências financeiras, falta de garantias e até por ausência de documentos contábeis fizeram com que uma pergunta se tornasse um mantra comum entre os empresários que desejam manter seus negócios: como desburocratizar o acesso ao financiamento para capital de giro e garantir oxigênio básico para o dia a dia das empresas?

Com tecnologia. Ela é a chave para a quebra de diversos paradigmas do sistema bancário que prevalecem até hoje, como por exemplo a crença de que é necessário construir um relacionamento com o cliente antes de validar uma operação de crédito. Se eu tenho ferramentas digitais para analisar a vida financeira deste cliente, conhecer sua capacidade de pagamento e seu histórico enquanto pagador, porque eu preciso de um relacionamento de meses – às vezes anos – antes de conceder-lhe o empréstimo do qual ele necessita? As informações sobre o ritmo econômico de uma empresa são públicas e estão disponíveis em uma mesma base de dados para consulta. Logo, por que não realizar uma avaliação online, receber os documentos certificados digitalmente e liberar o crédito?

Porque é uma questão cultural. Nas instituições financeiras tradicionais, antes de cogitar a possibilidade da obtenção de financiamento, o tomador precisa obrigatoriamente abrir uma conta bancária, começar a transacionar valores, passar seus recebíveis para esta nova conta e manter um longo relacionamento com banco, como se ele precisasse provar que se trata de uma empresa de confiança.

Entretanto, além de arcaico, este método contradiz tudo o que se preconiza quando falamos em transformação digital e em democratização dos serviços bancários. E mostra a dificuldade das instituições financeiras em se adequar aos modelos inovadores nascidos com as fintechs – mais ágeis, menos burocráticos e mais conectados com a vida contemporânea.

De acordo com o Distrito Dataminer, o Brasil já possui mais de mil delas em diferentes categorias, com soluções de crédito, investimentos, finanças pessoais, cartões, fidelização, criptomoedas, meios de pagamentos, seguros, gestão financeira, e muitas outras. Costumo dizer que as fintechs são lanchas, enquanto os grandes bancos são navios. Enquanto as primeiras se deslocam e fazem várias curvas, os segundos ainda estão pensando em como fazer a primeira.
Não é por acaso que o mercado digital e livre de burocracias vem, inclusive, despertando o interesse da B3. Recentemente, em parceria com a Redpoint Eventures, a bolsa testou uma nova plataforma on-line para reduzir a burocracia no momento de captação de investimentos por startups. A ideia é que a atuação da B3 neste setor aumente a liquidez e facilite a captação de recursos. Ou seja, é um esforço para viabilizar o crescimento e o desenvolvimento do empreendedorismo brasileiro, com foco na desburocratização.

Um bom exemplo de facilitação dos créditos é a modalidade peer-to-peer lending (P2P), que consiste em empréstimos realizados entre pessoas, sem interferências de um banco, por meio de uma plataforma digital. Com estruturas físicas enxutas, as empresas especializadas nisso realizam o processo de maneira totalmente online, com custos muito menores e sem necessidade de documentos físicos e outras burocracias. O modelo é bom para os dois lados: enquanto os investidores conseguem retornos maiores, as empresas conseguem taxas menores no momento de solicitar o seu empréstimo.

Talvez você esteja se perguntando se a análise é totalmente digital, mas não é exatamente assim: a avaliação de crédito é híbrida, sendo 80% dela automática, o que agiliza significativamente o processo. Em média, a liberação de um empréstimo P2P leva dois dias úteis para ser liberada. E, obviamente, há controles rigorosos para que o investidor se sinta seguro, já que os princípios continuam os mesmos: demonstração de capacidade de pagamento, boa alavancagem, bom score nos bureaus de crédito e respaldo patrimonial. Só que o processo é muito mais dinâmico e acessível.

Resumindo, muitas empresas deixam de conseguir o fôlego do qual necessitam não porque não mereçam, mas sim porque não são bem atendidas pelos bancos tradicionais. As fintechs que acabaram de chegar representam a democratização do crédito, mais competitividade, taxas mais justas e menos morosidade – tudo o que o pequeno e o médio empreendedor necessitam para respirar melhor em tempos de pandemia.

*Cofundadora da Ulend
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