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Cesar Vanucci*

“Um golpe com uma palavra, fere mais fundo que um golpe de espada.” (Robert Burton)

Na roda de amigos, o professor comentou dissabores enfrentados por conta de uma “palavra maldita”. Na verdade, por conta de equivocada interpretação de uma palavra dita em sala de aula. Ao ocupar-me do relato do que aconteceu asseguro, de antemão, que o caso se reveste de componente hilário.

Essa coisa de “palavra maldita” puxa da memória cenas da meninice em que me vi às voltas, assustado, com situações descritas pelos adultos em tom misterioso, parece até com o objetivo de criar medo na cachola dos mais novos. Relembro, primeiro, o caso de “certa música maldita”… O relato foi ouvido da boca de cidadão bem posto na vida, numa prosa com um grupo de fedelhos do qual este neto de dona Carlota fazia parte. Com voz propositalmente soturna, selecionando expressões como se estivesse a resguardar-se de algo sombrio, ele deixou claro que a tal melodia atraia malefícios incontáveis, sempre que executada. Recomendando se evitasse assobiá-la, passou para seus transtornados ouvintes o nome da música, “Ramona”. A tal “música maldita”, afirmou, persignando-se, havia sido a derradeira tocada pela orquestra do “Titanic” antes do adernamento que comoveu o mundo. Eu já me perguntei se não teria sido por causa de crença tão insólita que a ramona caiu em desuso como sinônimo de grampo…

Recordo-me também de um “xingamento maldito”, contemporâneo dessa “música maldita”. A expressão “excomungado”, concentrando carga blasfema e pejorativa infinitamente superior à da injúria (por muitos sintetizada nas letras fdp) assacada contra a honra materna, era capaz de provocar – dizia-se então – raios fulminantes da “suprema cólera celeste”. Pelo sim, pelo não, ninguém ousava, em tempos de antanho, descarregar pra cima de ninguém o aterrorizante insulto…

Chegada a hora de falar dos contratempos vividos pelo cidadão citado no introito destas maltraçadas. Titular da cadeira de Moral e Cívica em colégio do interior foi incumbido de fazer uma palestra, para a classe, sobre a questão sexual no meio jovem. “Pisando em ovos”, conforme sublinhou, evitando ferir suscetibilidades, procurou transmitir aos adolescentes uma orientação consentânea com os respeitáveis padrões culturais vigentes na localidade. Às tantas, tornou explícita sua condição de heterossexual. Do fundo da sala, brotou uma indagação: – Assumido, professor? A resposta veio sem hesitação:

– Claro, isso mesmo!

Veja como são as coisas. Dias depois, raivosos representantes da Associação de Pais levaram uma conversa reservosa com o diretor do colégio, manifestando inconformismo com a atitude do professor que teria declinado, em sala de aula, “escabrosa opção por práticas atentatórias à moral e bons costumes”. Inteirando-se dos fatos corretos, o diretor esclareceu aos interlocutores de que eles estavam redondamente enganados. Comprometeu-se a levar a explicação adequada do sucedido aos alunos. Levou. De forma bem didática, enfatizou pra garotada a diferença entre heterossexualidade e homossexualidade. Adiantou nada. Na boataria que se seguiu, a intervenção do diretor foi tida como tentativa frustrada de consertar a “bobagem” cometida pelo “professor assumido”.

Na roda de conhecidos, o professor arrematou o relato: “Não houve jeito de ser desfeito o mal-entendido. Além do disse me disse maledicente, muita gente continuou a me olhar de esguelha. Tudo por causa de haver declarado ser heterossexual. Palavrinha danada! Hesito, até hoje, em pronunciá-la.”

Vez do leitor.  – O leitor Mário Barros assim se manifesta sobre o artigo “Escalada de preços indecorosa” (DC. 22.09) “Muito claros e pertinentes seus comentários sobre fatos que afligem a sociedade brasileira neste caótico momento, potencializado por problemas sanitários ainda por solucionar. Infelizmente não temos governo e nossa indignação se transforma em revolta silenciosa que somente nos acarreta lastimáveis enfermidades. Aumento de preços de produtos básicos, códigos fantasmas nos recibos dos supermercados e outras mazelas sem controle das autoridades nos impõem uma mudança de atitude que somente será efetiva caso tenhamos a educação e conscientização da nossa população. Nada disso interessa aos nossos governantes, infelizmente…”

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)