Cleitinho terá desafio de transformar força eleitoral em capacidade de governar Minas
A vitória do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) na disputa pelo governo de Minas Gerais, no primeiro turno, inaugura um novo ciclo político no Estado e coloca em debate a capacidade do governador eleito de transformar a força demonstrada nas urnas em gestão pública e resultados econômicos. Procurado pelo Diário do Comércio, o setor produtivo adotou, em sua maioria, uma postura que especialistas consideram cuidadosa.
A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG), a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de Minas Gerais (FCDL-MG), o Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de Minas Gerais (Ibef-MG) e a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais (OAB-MG) informaram que não se posicionarão sobre o resultado eleitoral.
Entre as entidades que se manifestaram, a Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas) avaliou que o principal desafio do novo governo será transformar as expectativas da população em ações concretas, com responsabilidade e eficiência na gestão pública e atenção ao desenvolvimento econômico e social. Em nota assinada pelo presidente Cledorvino Belini, a entidade também ressaltou a importância da participação da sociedade na definição dos rumos do Estado e classificou o resultado eleitoral como uma demonstração da força da democracia.
Segundo a ACMinas, o setor produtivo está disposto a contribuir com o poder público na construção de soluções para o desenvolvimento de Minas e do País. A entidade também defendeu um ambiente favorável ao empreendedorismo, aos investimentos, à geração de empregos e ao crescimento econômico.
Capacidade de execução
Para o professor e coordenador do curso de Ciências Econômicas do Ibmec BH, Ari Francisco Junior, Minas Gerais deve manter uma trajetória de crescimento, embora em ritmo moderado. Segundo ele, a diversificação da economia do Estado, com presença da mineração, do agronegócio, da indústria de transformação e dos serviços, é uma vantagem, ainda que a atividade continue exposta ao comportamento das commodities, especialmente minério de ferro e café.
Na avaliação do economista, a principal mudança para Cleitinho será deixar a atuação parlamentar e assumir as responsabilidades do Executivo, movimento que exigirá mais do que capacidade de comunicação política. “A transição de Cleitinho do Legislativo para o Executivo exige mudança de incentivos. O discurso precisa ser acompanhado da capacidade de implementação. Governar demanda formação de equipe técnica, construção de coalizões e definição de prioridades orçamentárias”, afirma.
O coordenador ressalta ainda que a construção de uma base política ampla será fundamental para que o governador eleito consiga administrar interesses distintos, como prometeu durante a campanha. Para Francisco Junior, a escassez de recursos exige o estabelecimento de prioridades e maior previsibilidade nas políticas públicas. “Em regimes democráticos, governos são sempre resultados de uma combinação entre liderança política e equipe técnica”, afirma.
Na avaliação do economista, os resultados econômicos dependerão não apenas da atuação do governador, mas também da qualidade do secretariado, da coordenação administrativa e da relação com a Assembleia Legislativa.
O quadro econômico-financeiro aparece como um dos principais desafios para a nova administração. Francisco Junior considera exagerada a ideia de que Minas Gerais esteja “quebrado”. O Estado, segundo ele, possui uma economia robusta, com PIB superior a R$ 1 trilhão e posição de terceira maior economia do País. “O problema está no passivo fiscal acumulado ao longo de décadas”, resume.
A dívida de Minas com a União está na casa dos R$ 180 bilhões e levou o Estado a buscar mecanismos de renegociação, como a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Nesse cenário, o próximo governo terá, na avaliação do professor, de conciliar o equilíbrio das contas públicas com a necessidade de manter investimentos.
Entre os desafios, o economista cita o equacionamento da dívida estadual, a ampliação dos investimentos em infraestrutura, o aumento da produtividade, a redução dos gargalos logísticos e o fortalecimento da segurança jurídica para atrair investimentos. Para ele, o crescimento sustentável dependerá mais do avanço nessas questões do que de medidas de curto prazo.
Fenômeno político
A dimensão política da vitória também é destacada pelo professor de Relações Internacionais e Direito do Ibmec BH Adriano Cerqueira. Para ele, o desempenho de Cleitinho representa um fenômeno político em Minas, especialmente pela capacidade de conquistar votos de eleitores de diferentes campos políticos. “As eleições em Minas mostraram um fenômeno, que é o Cleitinho. Ele, na primeira disputa para o governo de Minas, conseguiu ganhar já no primeiro turno, e conseguindo pegar votos tanto de eleitores de Lula quanto de Flávio. Mostra a capacidade de comunicação dele de conseguir se fazer valorizar em eleitorados bastante polarizados”, analisa.
A formação de uma base parlamentar aparece, na avaliação do especialista, como uma das primeiras tarefas do governador eleito. Segundo Cerqueira, o Partido Liberal (PL) terá papel relevante nesse processo, enquanto partidos de centro-direita podem contribuir para a formação de uma maioria na Assembleia Legislativa.
Para o professor, Cleitinho terá de combinar sua atuação política com uma estrutura administrativa capaz de executar as decisões do governo. Na avaliação de Cerqueira, o vice-governador eleito, Luis Eduardo Falcão (Republicanos), poderá ter participação importante na condução administrativa, enquanto Cleitinho concentraria parte de sua atuação na articulação política. “A grande incógnita é como será Cleitinho como Executivo. Não se sabe. Ele é um excelente articulador, é uma pessoa que fala francamente, é convincente, mas, tudo indica que é o seu vice que vai ser o braço administrativo do governo dele”, afirma.
Expectativa do setor produtivo
Apesar da ausência de posicionamento de parte das entidades empresariais consultadas, os especialistas ouvidos não avaliam o cenário como necessariamente negativo para a atividade econômica. Francisco Junior destaca que Minas possui uma economia forte, enquanto a ACMinas sinaliza disposição para participar da construção de soluções com o poder público.
A ausência de manifestações de parte das entidades empresariais pode ser interpretada, segundo Francisco Junior, como uma postura institucional diante da transição política. “Organizações representativas costumam aguardar a definição das equipes, das propostas e das prioridades antes de assumir posições mais concretas sobre uma nova administração”, conclui.
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