Flávio diz que não irá trabalhar para reverter fim da 6×1 e garante manter reajuste do mínimo e aposentadorias
Brasília – O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) afirmou na sexta-feira (16) em entrevista à TV Globo que não irá trabalhar para reverter o fim da escala de trabalho conhecida como 6×1.
Flávio, que disputa o segundo turno da eleição presidencial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), era contra a mudança na escala de trabalho, mas acabou mudando de posição diante do apoio popular e do crescimento do apoio à medida no Senado.
Uma das principais bandeiras do petista à reeleição, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) foi aprovada na quarta-feira pelo Senado e promulgada na manhã desta sexta em sessão que contou com a presença do próprio Lula.
“Não vou… é importante a sua pergunta, todos os direitos trabalhistas estão garantidos. Cada um pode ter sua opinião individual, mas da minha parte isso aqui está respeitado, foi uma decisão do Congresso Nacional. Então da minha parte nenhum questionamento com relação a isso”, ressaltou.
Flávio disse que mudou de posição sobre a proposta após ouvir a população brasileira durante a campanha.
Ajuste fiscal
Na entrevista, o candidato também garantiu que irá manter os reajustes do salário mínimo acima da inflação, que não irá desvincular o percentual de reajuste de aposentadorias e ainda que não irá eliminar os pisos constitucionais de repasses à saúde e à educação.
Uma eventual mexida nesses três pontos é apontada por economistas como necessária para um ajuste fiscal para reduzir a trajetória de endividamento público brasileiro. Dado divulgado pelo Banco Central no fim de setembro aponta que a dívida bruta do Brasil subiu a 82,9% do PIB em agosto.
Interlocutores de Flávio Bolsonaro na área econômica dizem que ele poderia fazer um ajuste de até R$250 bilhões para alterar a trajetória da dívida.
Na entrevista, o candidato disse que buscará cortar despesas possíveis e buscar novas fontes de receita. Citou que cortaria pelo menos 10 dos atuais 39 ministérios, o que ele próprio admite não teria grande impacto fiscal. Além disso, afirmou que buscará acabar com o que chamou de “corrupção” nas estatais para que elas voltem a ser superavitárias.
Mesmo sem detalhar, o senador também defendeu medidas como a eventual securitização de imóveis federais, que estariam avaliados em R$1,7 trilhão, e também a securitização das dívidas que a União tem a receber.
“O maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula”, disse, acrescentando um compromisso de não fazer economia com as pessoas mais pobres e de não atacar o funcionalismo público.
Ao contrário de Lula, que preferiu evitar críticas ao adversário na entrevista da véspera, Flávio Bolsonaro atacou em diversas ocasiões o presidente em suas declarações, muitas vezes até quando não respondia aos questionamentos feitos.
Mandato único
Na entrevista, Flávio disse que é a favor da aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição que acabaria com o instituto da reeleição para o cargo de presidente da República, ressaltando que só precisaria de um mandato para fazer o que tem que ser feito.
Questionado se a medida poderia implicar em outros cargos eletivos como parlamentares e governadores ou mesmo a ampliação do mandato presidencial, o senador afirmou que isso vai depender do debate no Congresso Nacional.
O candidato disse que, se eleito, seu irmão que está nos Estados Unidos, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, não vai ser chanceler. Entretanto, ele não foi claro sobre qual papel o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, teria no seu governo caso venha a ser eleito.
“Não está no radar”, afirmou, referindo-se à possibilidade de um cargo ao ex-presidente.
“O presidente Bolsonaro nunca tratou de cargo comigo, tenho o privilégio de na hora que tiver que consultar, vou falar com ele”, declarou, em outro momento.
O senador aproveitou para defender que a condenação de seu pai por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal foi uma “farsa”, conduzida por seus inimigos, citando, entre outros, o ministro Alexandre de Moraes, e que há vários vícios no processo.
O candidato, no entanto, afirmou que vai respeitar o resultado da eleição, caso perca a disputa final no próximo dia 25 para Lula.
“Eu vou disputar as eleições com as regras que estão aí, independente de qual for o resultado, eu vou respeitar”, disse, acrescentando estar confiante de que o Brasil vai continuar “escolhendo a mudança”.
Flávio venceu o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula.
Supremo
Flávio defendeu uma reforma do Judiciário para resgatar a credibilidade do Supremo e chegou a defender o impeachment de Moraes por atuação político-partidária no tribunal.
O magistrado está sob questionamento, no entanto, pelas relações que manteve com o banqueiro Daniel Vorcaro. Ao mesmo tempo, o senador evitou falar pontualmente das relações do ministro Nunes Marques, que foi indicado ao STF pelo seu pai, com Vorcaro.
“Todo mundo tem que estar abaixo da lei”, limitou-se a dizer.
Sem dar maiores explicações, Flávio repetiu que sua relação com Daniel Vorcaro foi de pedir um patrocínio privado a um filme privado — referindo-se à cinebiografia de Jair Bolsonaro — e que não teve nenhum tipo de contrapartida.
O senador é investigado pela PF por supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso dos repasses feitos por Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”. Nesta sexta, a PF pediu a prorrogação das investigações por mais 90 dias, iniciativa essa que está pendente de uma decisão do STF.
Reportagem distribuída pela Reuters
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