Parceiros do Futuro

Agenda de prosperidade passa por municípios mais preparados

Desenvolvimento sustentável depende de municípios organizados, com visão de longo prazo e capacidade de execução.
Agenda de prosperidade passa por municípios mais preparados
Foto: Reprodução Adobe Stock

A disputa por investimentos, talento e capacidade produtiva está redesenhando o papel dos municípios brasileiros. Em um cenário de transformação global, marcado por mudanças demográficas, avanço tecnológico e pressão sobre recursos estratégicos, as cidades deixam de ser apenas executoras de políticas públicas e passam a atuar como protagonistas do desenvolvimento econômico.

Nesse contexto, a menor unidade político-administrativa do País ganha centralidade na construção de um crescimento sustentável e de longo prazo. É nas cidades que se concentram, na prática, os desafios e as soluções que impactam diretamente a vida da população, desde infraestrutura e serviços até a capacidade de atrair empresas e gerar empregos.

Por isso, o projeto Parceiros do Futuro, comandado pelo Diário do Comércio, em parceria com a consultoria Spine, aproveitou a realização do Delta Fórum, no Sebrae Minas, em abril, para ouvir especialistas sobre o papel dos municípios na criação de um futuro de prosperidade real, que é o foco do projeto.

O Parceiros do Futuro quer estabelecer uma agenda de desenvolvimento sustentável e duradouro rumo a um cenário de prosperidade real, em que a diversificação econômica, a valorização da inovação e a geração de riqueza de forma equilibrada funcionam como pilares para a estruturação de um planejamento de longo prazo.

Do outro lado, experiências internacionais sobre crescimento econômico, atração de investimentos e políticas públicas estiveram no centro dos debates do Delta Fórum. O evento discutiu estratégias para tornar os territórios mais competitivos, inovadores e favoráveis ao empreendedorismo. Entre os seus objetivos estavam: conectar territórios para gerar resultados transformadores e ampliar o diálogo entre gestores públicos, lideranças empresariais e especialistas, além de conectar experiências globais com desafios enfrentados pelas cidades brasileiras.

Quatro forças globais redefinem o papel das cidades

Na palestra de abertura do Delta Fórum, “Cenário econômico e o protagonismo dos municípios no desenvolvimento”, realizada no Sebrae Minas, o diplomata, economista e ex-presidente dos Brics, Marcos Troyjo, defendeu que os municípios brasileiros precisam se reposicionar diante de uma transformação global já em curso, em um debate centrado no papel das cidades na construção de um futuro de prosperidade real.

Marcos Troyjo
Foto: Divulgação Amanda Ketly

Segundo ele, para entender o papel das cidades, é fundamental ampliar o olhar e conectar decisões locais a movimentos globais que estão em andamento. Assim, quatro grandes dinâmicas estão em curso e moldam o ambiente de decisões dos gestores públicos.

A primeira é demográfica, com o envelhecimento e o encolhimento das populações, dando vazão ao fenômeno da economia prateada.

A segunda transformação vem do deslocamento do eixo de crescimento da economia mundial. Países emergentes, especialmente na Ásia e na África, passarão a liderar a expansão econômica, pressionando a demanda por alimentos, energia e infraestrutura.

Nesse contexto, o Brasil ganha relevância estratégica, visto que reúne ativos como água, capacidade produtiva de alimentos, energia e minerais, cada vez mais escassos.

“Estamos diante de uma economia em que recursos estratégicos valem mais do que nunca, e o Brasil é um dos poucos países com escala e diversidade para responder a essa demanda”, explica Troyjo.

A terceira mudança é tecnológica e o consequente aumento do consumo energético. O avanço da inteligência artificial e de grandes centros de dados exige infraestrutura robusta, acirrando a relação entre inovação e capacidade produtiva. Assim, tecnologia e recursos naturais deixam de caminhar separados e passam a ser interdependentes.

Por fim, o economista chamou a atenção para um novo fator de competitividade: o talento. Mais do que dons naturais e especialização, ele defendeu a capacidade de adaptação e de conexão entre diferentes áreas como diferencial para gestores públicos.

“O talento, hoje, é a capacidade de fazer além daquilo em que você já é bom. É isso que vai diferenciar cidades e lideranças”, pontua o diplomata. A disputa por investimentos entre os municípios é um dos pontos mais sensíveis para a construção de um desenvolvimento sustentável e equilibrado dentro do Estado e do País.

Atração de investimentos vai além de incentivos fiscais

No painel “Atração de Investimentos, um posicionamento para além dos incentivos fiscais”, o professor Javier Sánchez Casademunt, de Barcelona, trouxe a experiência da cidade espanhola para reforçar que confiança e planejamento de longo prazo são determinantes na competitividade de cidades.

Javier Sánchez Casademunt
Foto: Divulgação Amanda Ketly

“Ganham aqueles que sabem vender bem o seu território, e isso passa por construir confiança. O investidor precisa enxergar uma cadeia estruturada, com fornecedores, serviços e apoio em todas as etapas. O problema e a solução estão no município. Quando há preparo técnico e entendimento dos processos, o ambiente se torna mais seguro e confiável para quem quer investir”, avalia Casademunt.

Segurança, previsibilidade e integração entre setores são pontos fundamentais na visão da iniciativa privada. O fundador e CEO da Zolver, Luiz Felippe Delmazo, analisa que fatores como logística, mão de obra e infraestrutura também têm peso decisivo. Em operações de e-commerce, por exemplo, o custo com transporte pode representar cerca de 30% da operação, enquanto o galpão de logística varia entre 3% e 6%. “O investidor não decide com base apenas em custo ou incentivo fiscal. Ele busca um ambiente onde o investimento possa acontecer com segurança e eficiência. O que define a escolha, muitas vezes, é a eficiência logística que o território oferece. Não adianta o projeto chegar pronto se o ambiente não estiver preparado. É preciso organizar o território antes da demanda aparecer”, analisa Delmazo.

Luiz Felippe Delmazo
Foto: Divulgação Amanda Ketly

Organização interna ainda é o principal gargalo

O líder da área de Relações Institucionais e com Municípios da Invest Minas, Carlos Romualdo, concorda e aponta que a organização interna dos municípios é um dos principais gargalos e, ao mesmo tempo, uma oportunidade.

Carlos Romualdo
Foto: Divulgação Amanda Ketly

“Se o município não está estruturado, com processos claros, informações disponíveis e capacidade de resposta, dificilmente conseguirá atrair investimentos. O acesso a dados, a disponibilidade de áreas e a articulação com fornecedores e financiadores fazem muita diferença na prática”, reforça Romualdo.

Preparar os municípios para um futuro próspero significa antecipar tendências e usar os dados gerados pelo uso da tecnologia como diferencial para melhorar a vida da população. No Estado, a Lei nº 24.839/2024, conhecida como “Minas Inteligente”, instituiu a política estadual de apoio às cidades inteligentes, incentivando municípios a adotarem tecnologias para eficiência e sustentabilidade. O foco é a infraestrutura urbana, o desenvolvimento econômico, a governança e o uso de dados. A legislação prevê inovações em mobilidade e serviços para melhorar a qualidade de vida, alinhada com os princípios de cidades inteligentes.

A criação de cidades inteligentes se relaciona com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), que preveem 17 metas globais a serem cumpridas por países até 2030, com vistas a erradicar a pobreza e garantir uma vida digna para todos. O programa mineiro está alinhado com as principais diretrizes nacionais e internacionais para promover o desenvolvimento sustentável das nossas cidades e propõe o desenvolvimento de seis eixos estratégicos: governança, planejamento territorial, desenvolvimento econômico, inovação, capacitação e formação de lideranças e parcerias.

Rogério Corgosinho
Foto: Divulgação Amanda Ketly

Para o gerente de Desenvolvimento Territorial e Serviços Financeiros do Sebrae Minas, Rogério Corgosinho, o intercâmbio internacional é uma oportunidade para ampliar a visão sobre o desenvolvimento econômico municipal. “A presença de palestrantes de outros países reforça a proposta de conectar tendências globais a desafios locais, discutindo soluções que podem fortalecer a competitividade das cidades e criar ambientes mais favoráveis ao empreendedorismo, além de apresentar novas perspectivas e experiências que já foram testadas em outros contextos. Isso contribui para enriquecer o debate e inspirar gestores públicos e lideranças locais a adotar políticas mais eficientes para estimular o desenvolvimento municipal”, reforça Corgosinho.

Municípios no centro do desenvolvimento

O que está em jogo
Municípios ganham protagonismo na atração de investimentos e na geração de crescimento sustentável, em um cenário de mudanças globais.

Quatro transformações que moldam o cenário
• Demográfica: envelhecimento da população e avanço da economia prateada
• Econômica: crescimento puxado por Ásia e África
• Tecnológica: expansão da inteligência artificial e maior demanda por energia
• Talento: capacidade de adaptação e conexão como diferencial competitivo

O que define a competitividade das cidades
• Planejamento de longo prazo
• Segurança jurídica e previsibilidade
• Infraestrutura e logística eficientes
• Integração entre setores público e privado

Gargalos mais críticos
• Falta de organização interna dos municípios
• Baixa disponibilidade de dados estruturados
• Dificuldade de articulação com fornecedores e financiadores

O que pesa na decisão do investidor
• Eficiência logística pode definir a escolha
• Transporte pode representar cerca de 30% da operação
• Galpões logísticos variam entre 3% e 6% do custo

Caminho para o futuro
• Uso estratégico de dados
• Adoção de tecnologias para cidades inteligentes
• Formação de lideranças e capacitação técnica

Base institucional em Minas
Lei nº 24.839/2024, “Minas Inteligente”, incentiva inovação, governança e desenvolvimento urbano sustentável.

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