Editorial

O que vem primeiro?

É necessário um uso estratégico da Petrobras como instrumento de soberania
O que vem primeiro?
Crédito: Reprodução/ Adobe Stock

Embora as tensões internacionais tenham diminuído nos últimos dias, sendo possível imaginar que por conta de discretíssima intervenção da China que estaria por trás da retomada de negociações entre Estados Unidos e Irã, os preços do petróleo prosseguem como principal paramento para avaliação da economia e suas tendências. E não faltando quem cuide de lembrar que se a cotação do barril permanecer por muito tempo mais acima dos U$ 100, o impacto sobre a economia global será forte e a recuperação muito lenta. Evidentemente, em primeiro lugar, para quem não tem produção própria e depende de importações.

Na primeira crise do petróleo, nos anos 70 do século passado, o Brasil estava no rol dos países fortemente dependentes de importações, uma fragilidade que custou muito caro. Mas também estimulou ambições e disposição para persegui-las com grandes investimentos em prospecção, sem que se fosse dado ouvido à tese de que não existiria petróleo em território brasileiro e que a própria Petrobras seria aventura condenada ao fracasso. Hoje, o Brasil produz 3 milhões de barris de petróleo/dia e consome aproximadamente um terço deste total. E ainda depende de importações porque não tem capacidade de refino que atenda à demanda atual.

Ainda assim, cabe entender que não faz sentido o país se curvar à ditadura dos preços internacionais, clarissimamente manipulados, porque este seria o interesse dos acionistas da Petrobras. Sem que seja necessário recordar que o capital majoritário na empresa representa o Estado brasileiro, cabe repetir – e até o limite da exaustão – que a Petrobras não pode ser pautada por interesses tão pequenos, distantes e dissociados de sua condição estratégica, de instrumento de políticas públicas e da própria soberania nacional no seu mais elementar entendimento. Outra não pode ser a conclusão diante dos fatos, diante dos riscos representados pelas condições externas e por fatores que escapam à nossa capacidade de intervir.

Mas temos petróleo e podemos nos bastar, livres de pressões externas e de interesses que absolutamente não coincidem com os nossos. Deve causar espanto que este não seja o entendimento de todos os brasileiros, menos a parcela dos que defendem a especulação ou fingem não perceber a verdadeira natureza dos negócios da Petrobras. Aí entenderiam que a suposta defasagem entre os preços internacionais e aqueles praticados internamente pode ser conveniente para alguns, mas agride os que pagam a conta e deveria ofender, sim, a inteligência de quem simplesmente observa. E sabe que feitas todas as contas, pagas todas as obrigações, o barril de petróleo nacional custa à Petrobras menos de U$ 20.

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