Prosperidade de vidro
O Brasil de 2026 vive uma incômoda ironia: de um lado, ostenta dinamismo com desemprego em 5,2%, safras recordes e concessões públicas. De outro, segue acorrentado a um nó fiscal que dita juros reais estranguladores e dívida em expansão. É o retrato de um país que, em certa medida, modernizou sua infraestrutura, mas patina no básico da contabilidade, gastando mais do que arrecada e mascarando fraquezas atrás de ventos externos que logo mudam de direção.
Para entender o desafio, o retrovisor ajuda. Ao final do segundo governo Lula, a área fiscal parecia resolvida. Com carga tributária próxima aos atuais 34% do PIB, o país gerava superávits de 3% e reduzia a dívida para perto de 50%. Em 2026, com a mesma fatia da riqueza nacional extraída em impostos, as contas públicas permanecem no vermelho e o governo deve encerrar este mandato com uma dívida bruta projetada em 83,6% do PIB, vinda de 71,7% no final de 2022. A diferença está no ritmo das despesas, que saltaram cerca de 20% em termos reais neste mandato.
Essa gastança colide com os limites da nossa capacidade produtiva. Crescemos adicionando mão de obra, mas com baixíssima produtividade. Nos últimos trinta anos, o salário-mínimo real avançou pouco mais que 150%, enquanto a produtividade do trabalho subiu cerca de 25%. Quando o estímulo ao consumo supera a oferta, o resultado é a pressão inflacionária e a necessidade de manter a taxa Selic restritiva.
Diante de um déficit nominal em 8,5% do PIB, a calmaria do mercado surpreende, mas reside mais nos erros alheios. O ruído institucional e as tarifas da administração Trump nos EUA provocaram um enfraquecimento global do dólar, no último ano. O Brasil, oferecendo juros atraentes, virou um porto temporário para o capital estrangeiro. Esse alívio externo, contudo, é um anestésico que compra fôlego para o ano eleitoral, mas não resolve o endividamento insustentável.
Na gestão de Fernando Haddad, há acertos históricos e contradições. O triunfo é a reforma tributária, esforço de décadas que promete destravar a produtividade. A firmeza em encerrar políticas obsoletas, também merece créditos. Por outro lado, o arcabouço fiscal padece de inconsistências. Não se sustenta um teto de gastos reindexando os mínimos de saúde e educação à receita, expandindo custos justamente quando se tenta arrecadar mais.
A complicação será maior em 2027, quando um ajuste necessário de quase R$ 300 bilhões bater à porta. Com a rejeição a novos impostos, o debate exigirá coragem política para encarar a eficiência do gasto público. Rever a calibração de programas sociais no pleno emprego não é insensibilidade, mas pragmatismo. Acabar com benefícios para os “campeões nacionais”, também. O Brasil dispõe de motores espetaculares. O potencial está dado, resta desatar o nó fiscal e parar de aceitar a mediocridade.
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