Editorial

Caminho sem volta

Chegada de veículos eletrificados ao Brasil confirma uma transição que tende a se tornar irreversível
Caminho sem volta
Foto: Reprodução/Adobe Stock

Não sem alguma dose de surpresa, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) registra que, no primeiro trimestre do ano, foram emplacados no país 100 mil veículos eletrificados. O número representa quase o dobro do total apurado em igual período do ano anterior e indicativo, segundo a entidade, de que estes produtos estão em processo de consolidação no mercado doméstico, seguindo tendência global, com ritmo de crescimento de 15% nos últimos meses.

A instabilidade com relação ao suprimento e aos preços dos derivados de petróleo, ainda agora exacerbada por conta da guerra no Irã, sugere, de fato, a urgência da busca de alternativas, espaço em que veículos eletrificados naturalmente se destacam. E sem que seja preciso lembrar que os primeiros veículos automotores fabricados em escala industrial, na virada do século XIX para o século XX, eram tracionados por motores elétricos. Eles são mais simples e mais eficientes, mas acabaram perdendo a corrida para os motores a explosão, precisamente por conta dos interesses da indústria do petróleo.

Mudar, em um processo que na Europa e Estados Unidos foi desacelerado mais uma vez, ao que tudo faz crer por conta de interesses contrariados, parece ser caminho sem volta. E, não por coincidência, precisamente o caminho que vem sendo seguido pela China – na atualidade o maior fabricante de veículos leves no planeta, líder também na oferta de eletrificados. Mudar é simplesmente questão de vontade ou de capacidade de resistir, não havendo impedimentos de ordem técnica ou econômica que justifiquem o contrário.

Eis a medida da importância do anúncio que acaba de ser feito pela Anfavea, jogando por terra alegações de que a transição teria entrado em processo de desescalada diante de dúvidas ainda existentes com relação, principalmente, a custo e durabilidade das baterias, além das condições de oferta adequada de energia elétrica para recarregá-las na hipótese de efetiva substituição. Já nos anos 70, na primeira crise do petróleo, sabia-se que a substituição era possível, dependendo apenas de vontade política.

Ao Brasil, como temos dito neste espaço, cabe acompanhar a movimentação e bem compreender as questões que efetivamente estão em jogo. Para decidir e para se preparar, numa velocidade que os dados agora revelados pela Anfavea sugerem que deva ser maior. A frota eletrificada está crescendo e já tem impacto o mercado e tal realidade deve ser percebida com mais clareza. Principalmente para que a oferta de estações de recarga seja ampliada e para que sejam consolidadas as regras com relação ao seu funcionamento em condomínios, preservadas as condições de segurança. A mudança ao que tudo indica é saudável e necessária, mas pode fracassar, se não houver suporte adequado aos veículos entrantes.

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