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Cidades buscam soluções verdes para enfrentar clima extremo

Cidades brasileiras adotam jardins de chuva, parques lineares e telhados verdes para se adaptar às mudanças do clima
Cidades buscam soluções verdes para enfrentar clima extremo
Telhado verde do Hospital Orizonti tem cerca de 7 mil metros quadrados (m²) de cobertura vegetal, com capacidade para captar 370 mil litros de água da chuva | Foto: Wander faria / Hospital Orizonti

Diante do aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, as cidades brasileiras têm acelerado a adoção de soluções urbanísticas voltadas à adaptação a esses fenômenos. Iniciativas como jardins de chuva, parques lineares e telhados verdes vêm sendo incorporadas ao planejamento urbano como alternativas para reduzir alagamentos, amenizar ilhas de calor e tornar as cidades mais resilientes.

A aposta em soluções baseadas na natureza, aliadas a intervenções tradicionais, tem ganhado espaço tanto no poder público quanto nas iniciativas da sociedade civil. Em Belo Horizonte, a adoção dos chamados jardins de chuva é uma dessas estratégias de adaptação.

Segundo o diretor de Análise de Licenciamentos Urbanísticos Especiais da Secretaria Municipal de Política Urbana, Isaac Medeiros, a iniciativa integra um projeto mais amplo, que já vem sendo desenvolvido pela prefeitura há décadas. “A gente está nesse esforço, que é global, de adaptação da cidade para responder às mudanças climáticas. Essa já é uma pauta da Prefeitura de Belo Horizonte há mais de 20 anos”, afirma.

Segundo o diretor, o problema da drenagem urbana é histórico na capital mineira e tem sido agravado pelo crescimento da impermeabilização do solo e pelas mudanças no regime de chuvas. “Nos últimos 20 anos, esses problemas, que já eram graves, estão se agravando ainda mais. O padrão de chuva mudou, o padrão de temperatura mudou, e a gente passou a lidar com o drama das inundações de maneira mais gritante”, pontua Medeiros.

Nesse contexto, os jardins de chuva surgem como alternativa sustentável. Implantados em espaços públicos, eles permitem a absorção da água da chuva pelo solo, reduzindo o escoamento superficial. Hoje, Belo Horizonte conta com 67 unidades. “O jardim de chuva não dá sozinho uma resposta imediata para grandes alagamentos, mas prepara a infraestrutura da cidade para um processo mais sustentável de redução desses volumes”, pontua Medeiros.

Em uma visão local, ele ressalta que os efeitos já são percebidos. “Na escala da rua, onde se implanta, o resultado é bastante satisfatório e muito efetivo”, diz. Porém, destaca que o impacto mais amplo depende da expansão dessas soluções. “A grande questão da infraestrutura verde é a escala. Quando você tem essas infraestruturas em larga escala, começa a ver resultados significativos”, comenta.

Além dos jardins de chuva, a capital mineira também investe em parques lineares e incentiva a adoção de telhados verdes. Há ainda programas de engajamento da população, como o “Adote um Jardim de Chuva”, que oferece desconto no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para moradores que se responsabilizam pela manutenção. “A cidade precisa do cuidado de todos. Não adianta investir nesses projetos se o cidadão não apoiar”, afirma.

Jardins de chuva
Jardins de chuva estão entre as soluções adotadas em Belo Horizonte | Foto: Divulgação PBH

Para especialistas, a integração dessas iniciativas com políticas urbanas mais amplas é essencial. O secretário-executivo do Iclei América do Sul, Rodrigo Perpétuo, destaca que o conceito de adaptação baseada na natureza tem grande potencial para aumentar a resiliência urbana. O Iclei é uma associação mundial de governos locais dedicada ao desenvolvimento sustentável. “A aplicação de estratégias locais de biodiversidade tem um potencial muito grande para elevar a capacidade de adaptação das cidades aos eventos extremos”, afirma.

Ele explica que a chamada “cidade esponja” combina infraestrutura convencional com estratégias de soluções baseadas na natureza, como jardins de chuva, parques lineares e recuperação de áreas verdes. “Essas estratégias permitem aumentar a capacidade de absorção da água em diferentes pontos da cidade, reduzindo o risco de inundações”, diz.

No entanto, Perpétuo alerta que ações isoladas têm efetividade limitada. “Aplicar esse tipo de solução de maneira fragmentada não resolve. É preciso que elas estejam vinculadas às políticas de desenvolvimento urbano, como plano diretor, zoneamento e licenciamento ambiental”, ressalta.

Perpétuo cita Campinas, em São Paulo, e Niterói, no Rio de Janeiro, como exemplos de cidades que já avançaram nesse sentido, ao estruturar planos integrados de biodiversidade urbana. Segundo ele, Niterói tem um jardim infiltrante que talvez seja o maior da América do Sul, o da Lagoa de Piratininga. “Ele melhora a capacidade de absorção da água, a capacidade de retenção de águas da chuva e contribui para evitar inundações.”

Em Minas Gerais, iniciativas também começam a se estruturar nesse caminho. Em Curvelo, na região Central do Estado, por exemplo, está em desenvolvimento, conforme pontua Perpétuo, uma estratégia que mapeia serviços ecossistêmicos para orientar políticas públicas. “Esse diagnóstico ajuda a definir que tipo de solução baseada na natureza usar, onde e com qual objetivo”, explica Perpétuo.

Paralelamente às ações governamentais, organizações da sociedade têm contribuído para ampliar o alcance dessas soluções. A Associação Nossa Cidade, que atua em diversas cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, está estruturando um fundo emergencial climático voltado tanto para a resposta a desastres quanto para a prevenção.

De acordo com a gestora de fundos da entidade, Mariana Barros, a proposta é apoiar iniciativas locais que muitas vezes não têm acesso a financiamento. “A lógica do que a gente acredita é que pequenas iniciativas têm um grande impacto na vida das pessoas”, afirma.

O fundo, previsto para ser lançado no próximo mês, deve apoiar projetos como hortas urbanas, jardins de chuva, telhados verdes e ações educativas. “A ideia é tanto dar um suporte emergencial, no caso de enchentes e deslizamentos, quanto apoiar iniciativas que já acontecem para prevenir”, explica.

Segundo a gestora, o aumento dos eventos climáticos extremos tem impulsionado a criação desse tipo de mecanismo. “A gente vê que esse tema de clima vem crescendo, com eventos acontecendo com mais frequência e intensidade. É um jeito de estimular que essas iniciativas se multipliquem no território”, diz.

Para ela, o fortalecimento de ações locais é fundamental para reduzir riscos futuros. “É melhor prevenir do que remediar. Quando você apoia quem já está atuando no território, o impacto é muito mais direto e efetivo”, conclui.

Outro exemplo de ação da própria sociedade engajada na temática é o telhado verde do Hospital Orizonti – Instituto Oncomed de Saúde e Longevidade, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. O projeto possui cerca de 7 mil metros quadrados (m²) de cobertura vegetal, com capacidade para captar 370 mil litros de água da chuva.

De acordo com informações do hospital, o telhado verde traz benefícios, cumpre papel essencial para o clima da região e reduz o impacto ambiental. A estrutura ameniza ilhas de calor, mantém a temperatura equilibrada e contribui para um ambiente hospitalar mais fresco.

Além disso, promove o sequestro de gás carbônico e aumenta a produção de oxigênio, melhorando a qualidade do ar. O telhado verde também contribui para a redução da necessidade de climatizadores artificiais, melhorando a eficiência energética. A estrutura ainda capta a água da chuva e a reutiliza para irrigação, limpeza externa e descargas, além de regular a drenagem das águas pluviais.

Exemplos como esse, baseados na natureza, são considerados por Rodrigo Perpétuo mais eficientes do que as soluções tradicionais. “As bacias de contenção tendem a otimizar esse tipo de infraestrutura, mas podem não ser suficientes. Então, quando você aplica soluções baseadas na natureza, você está deixando a solução por todo o trajeto do curso de água. Você utiliza a capacidade de todos os recursos para aliviar a infraestrutura e oferece um espaço urbano com muito mais qualidade de vida para a população que transita ali”, finaliza.

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