Comércio da Savassi reclama de abandono e falta de diálogo com o poder público
A Savassi, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, conquistou ao longo dos anos o status de polo comercial consolidado, atendendo a diversos tipos de público e tornando-se referência em tendências para a cidade. Entretanto, a pujança de outrora parece estar se perdendo na região. O fechamento de lojas de rua em grande volume tem gerado preocupação entre comerciantes e moradores.
Segundo a Associação de Moradores da Savassi (AmoSavassi), os estabelecimentos estão encerrando suas atividades em todas as partes da região. Na percepção de quem vive a região no dia a dia, as causas são multifatoriais. A concorrência com centros de compras maiores e o comércio eletrônico estão entre os possíveis fatores, mas não são os únicos.
“Nós percebemos o seguinte: o comércio eletrônico afetou? Afetou sim, mas não é o mais importante. O comércio eletrônico talvez tenha afetado mais as lojas de vestuário, principalmente aquelas com tíquete médio muito baixo, que também é uma característica da Savassi. Observe a Feira Shopping, que sofreu muito. Shein, Shopee, os comércios eletrônicos, principalmente de vestuário de tíquete médio muito baixo, afetaram 40% do faturamento deles. Mas ainda assim, essa questão da competição com a internet não é o fator principal”, disse o presidente da AmoSavassi, Helênio Soares Júnior.
Para o morador e presidente da associação, o comércio da região precisa estar “vivo” e ativo para manter sua atratividade como um shopping a céu aberto, onde as pessoas passeiam e aproveitam para fazer compras. Helênio afirma que falta sensibilidade aos proprietários dos imóveis, que cobram aluguéis que “sufocam” as margens dos pequenos comerciantes.
“Há uma falta de sensibilidade dos proprietários, dos locadores. Muitos deles não estão pensando na sociedade, não estão pensando na sobrevivência da comunidade. Estão especulando valores de aluguel, com preços exorbitantes que não condizem mais com a realidade atual do bairro”, disse.
De acordo com o Índice FipeZap de Venda e Locação Comercial, o valor médio de um aluguel comercial na Savassi é de R$ 69,50/m², o segundo mais caro de Belo Horizonte.
Segurança
Além das questões econômicas, com a concorrência das lojas virtuais e os imóveis com preços elevados, o comércio da Savassi busca apoio do poder público para resolver um problema que afeta não só a região, mas toda a cidade: a segurança pública. Os relatos de moradores e lojistas apontam altos índices de furtos, e os dados confirmam o que a população diz.
Nos primeiros dez meses de 2025, Belo Horizonte registrou 54.958 furtos, conforme a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). A região Centro-Sul concentra 10.874 ocorrências, e a Savassi lidera o ranking entre os bairros da região, com 2.057 furtos. Em seguida aparecem Serra, com 941 registros, e Floresta, com 939. A sensação de insegurança tem afetado a circulação de pessoas na região.
“A Savassi ainda está precisando de ajuda do poder público. O principal problema aqui são as pessoas em situação de rua. Essas pessoas hoje estão agressivas, roubam. Na Antônio de Albuquerque tem uma loja do Cruzeiro. O proprietário me liga e fala: ‘olha, vem aqui, o cliente não tem coragem de entrar na minha loja.’ Eles ficam na frente fazendo sujeira e assustam a população”, conta Helênio Soares, da AmoSavassi.
Tentativas de articulação
Em busca de soluções, moradores e comerciantes tentam acionar o poder público com sugestões concretas. “Tem que envolver o Ministério Público, o governo do Estado, a iniciativa privada, as grandes empresas. Tem que ser um pacto. Vamos investir numa solução, mas todos os atores envolvidos precisam sentar à mesa”, explica Soares.
Associado à questão da violência, outro fator que afasta o público do comércio local é o acúmulo de lixo. Em 42 quarteirões, a geração de resíduos é intensa, e o trabalho de reciclagem ainda é frágil, segundo a AmoSavassi, que tem buscado parcerias com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e o Sindilojas-BH.
“Estamos nos articulando com a Abrasel, porque os bares e restaurantes são os grandes geradores de orgânicos, garrafas de vidro e óleo de cozinha, e com o Sindicato dos Lojistas, que são os grandes geradores de papel e papelão”, conta Helênio.
“Olha, já enviamos vários ofícios para a prefeitura. Na Câmara temos o apoio de alguns vereadores e temos realizado reuniões sobre o tema, mas as coisas não se resolvem, falta decisão. Com o prefeito, nunca consegui falar. Já encaminhei ofícios pedindo audiência várias vezes e nada”, afirma.
Ouça a rádio de Minas