Diversidade em Foco

O que mais é possível ser, além de sermos mães?

A socialização das meninas e as consequências da maternidade na vida profissional feminina: um debate urgente para empresas e sociedade

Outro dia estava no quarto da minha filha, deitada na cama com ela, e olhávamos para o monte de brinquedos de criança que ela ainda tem e que precisamos doar. E o que mais nos chamou a atenção eram os tipos de brinquedos que ali estavam: pia mágica, brinque e limpe, Caminha Sonha Comigo, castelo da Barbie e a lista de atividades ligadas ao cuidado da casa e dos filhos era interminável.

A grande questão aqui não é que ela não pudesse ter esse tipo de brinquedo, mas o quanto vamos socializando as nossas meninas para almejarem serem mães e donas de casa e o quanto vamos deixando para trás os ideais de serem ambiciosas e desejarem ganhar o mundo. Estudos mostram que com cinco anos as meninas vão deixando de sonhar e almejar um futuro brilhante.

O modo como culturalmente reforçamos o combo: mulher e mãe, como se fizesse parte natural da nossa vida, acarreta várias questões na vida profissional feminina, pois as mulheres desejam ser várias coisas além de serem mães e, algumas, inclusive, nem têm esse desejo, e está tudo bem.

Consequências para a carreira

Além disso, embora sejamos incentivadas socialmente a sermos mães, a decisão pela maternidade traz consequências diretas no desempenho da carreira feminina. Quase metade das mulheres que saem de licença-maternidade não estão mais na empresa dois anos após tirarem o benefício. Entre 2020 e 2025, mais de 380 mil mulheres foram demitidas sem justa causa no Brasil, em até dois anos após o fim da licença-maternidade (E-social). Apenas uma em cada quatro mulheres sente apoio consistente da liderança ao retornar da licença-maternidade (Women in the Workplace 2025).

No Brasil, as mulheres dedicam, em média, 9,8 horas a mais por semana do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado (MDS + OIT, Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho). Tudo isso porque há uma falsa crença de que deixamos de ser produtivas e rentáveis depois da maternidade – tabu que a neuroplasticidade já desconstruiu – e porque culturalmente creditamos a responsabilidade das tarefas dos cuidados majoritariamente às mulheres.

Dados como esses precisam ser encarados pelas empresas a fim de que impactos como a invisibilidade, a desaceleração da carreira ou mesmo o desligamento não expulsem as mães do mercado de trabalho. As lideranças devem trazer para a pauta das suas equipes o tema da maternidade com maturidade, escuta e responsabilidade institucional; e devem criar espaços seguros para falar sobre retorno ao trabalho, a culpa, a exaustão, a reorganização da rotina e as expectativas de carreira.

Economia do cuidado

É necessário que se criem redes de apoio institucionais e sociais para que haja uma melhor equalização da economia do cuidado entre os gêneros, pois o que se assiste hoje é uma sobrecarga das mulheres com triplas jornadas de trabalho, o que as leva ao esgotamento físico e mental.

Somente com a desromantização da maternidade e com o enfrentamento da pauta de modo sério por todas as instituições sociais poderemos ser mães e o que mais quisermos, sem exaustão, sem culpa, de modo pleno e feliz.

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