Retomada dos IPOs enfrenta custo de capital e incerteza fiscal
O elevado custo do capital é um obstáculo que o mercado brasileiro de ofertas públicas iniciais (IPOs) ainda precisa superar antes de uma retomada consistente, na opinião dos especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio. Embora 2026 tenha marcado o fim de um jejum de quase cinco anos sem novas listagens na B3, analistas avaliam que o movimento ainda está longe de representar uma reabertura efetiva do mercado e que o cenário mais favorável deve ficar para depois das eleições de 2026, possivelmente em 2027.
Os especialistas convergem ao apontar os juros elevados, a incerteza fiscal e a ausência do investidor local como os principais entraves às novas aberturas de capital. As diferenças, no entanto, aparecem no grau de otimismo em relação ao estágio atual da retomada.
O economista e CEO da Veedha Investimentos, Rodrigo Marcatti, adota uma visão mais cautelosa. Para ele, a taxa básica de juros continua inviabilizando novas ofertas ao reduzir o valor das empresas e desestimular empresários a buscar financiamento via bolsa.
“As projeções ainda são bem desanimadoras com essa atual taxa de juros. A dificuldade do Banco Central em promover mais queda por conta da pressão da inflação inibe os empresários a buscarem o IPO como forma de financiamento, dado o desconto que é aplicado sobre o valor das companhias”, afirma.
Marcatti acredita que dificilmente haverá uma retomada consistente ainda este ano e sequer no primeiro semestre de 2027. Segundo ele, a reabertura dependerá da credibilidade que o próximo governo conseguir transmitir ao mercado em relação ao controle dos gastos públicos e da dívida. “Vamos ter retomada mais para frente, se e somente se o governo conseguir trazer um pouco de expectativa positiva em relação à dívida, aos gastos e, com isso, a taxa de juros futura ficar mais baixa”, diz.
O especialista da Valor Investimentos, Gabriel Mattedi, reforça a cautela, mas reconhece que o mercado saiu do zero. Segundo ele, o IPO da Compass, do grupo Cosan, em maio deste ano, encerrou um período de quatro anos consecutivos sem nenhuma abertura de capital na B3. “O mercado de IPO do Brasil saiu do zero, mas ainda não é palpável a gente falar em retomada“, defende.
Para Mattedi, a operação teve importância simbólica, mas não representa uma mudança estrutural. Isso porque foi uma oferta secundária, aquela em que os recursos não entram no caixa da empresa, restrita a investidores e precificada no piso da faixa indicativa.
Ele destaca ainda um aparente paradoxo do mercado brasileiro: enquanto a bolsa voltou a receber forte fluxo de investidores estrangeiros e atingiu recordes recentes, o dinheiro permanece concentrado nas grandes companhias já consolidadas. “A bolsa está bem, mas a porta de entrada para novas ações continua fechada”, diz.
Na avaliação do especialista, o problema central continua sendo a Selic elevada. Com juros reais entre os mais altos do mundo, investidores encontram retornos atrativos na renda fixa, enquanto empresários resistem a vender participação em suas empresas com avaliações consideradas baixas. “O comprador quer desconto, o vendedor não aceita, e o negócio não sai”, resume.
Investidor local segue ausente
O gestor de investimentos e diretor de alocação da Trio Gestora de Recursos, Gabriel Arend Timm, compartilha praticamente o mesmo diagnóstico, mas considera que a retomada já começou, ainda que de forma bastante seletiva. “O mercado brasileiro de IPOs saiu do jejum e entrou numa fase de reabertura seletiva”, afirma.
Segundo ele, o perfil das operações mudou completamente em relação ao ciclo de 2020 e 2021. Hoje, há espaço apenas para empresas maduras, com geração consistente de caixa e negócios considerados previsíveis. “O desenho da operação representa o cenário atual do mercado. Há demanda, mas disciplinada em preço e concentrada em ativos maduros.”
Na avaliação de Timm, a principal diferença em relação aos demais analistas está na leitura sobre o fator que impulsiona esse início de retomada. Para ele, o principal motor tem sido o capital estrangeiro, favorecido pela busca global por diversificação de investimentos.
Ainda assim, faz uma ressalva importante: “Esse fluxo é naturalmente volátil e não substitui o papel do investidor brasileiro. Uma retomada sustentável exige o investidor local de volta à renda variável”, avalia.
Cenário deve melhorar em 2027
Apesar das nuances, os especialistas convergem em praticamente todos os fundamentos econômicos. Entre os principais fatores apontados estão os juros elevados, que tornam a renda fixa mais atrativa e reduzem o valuation das empresas; a incerteza fiscal e política, intensificada pelo período eleitoral; a retração dos fundos de ações brasileiros, reduzindo a demanda por novas ofertas; a preferência dos investidores por empresas já consolidadas e de maior liquidez; e a expansão do mercado de dívida, que passou a ser a principal fonte de financiamento corporativo.
Os especialistas também acreditam que existe uma fila relevante de empresas preparadas para abrir capital, mas aguardando uma janela mais favorável. Segundo Mattedi, mais de 50 companhias já possuem estrutura pronta para acessar o mercado, incluindo empresas mineiras como Patrimar, Emccamp, INC Empreendimentos e Blip, embora nenhuma tenha confirmado oficialmente a operação.
Na avaliação dos especialistas, a combinação entre queda consistente da Selic, melhora das expectativas fiscais e sucesso das primeiras ofertas será determinante para destravar novas operações. “O que destrava IPO não é a empresa que abre; é a empresa que abre e dá certo”, finaliza Mattedi.
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