Crédito, dívida e risco
Recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou seu relatório de avaliação sobre a estabilidade do sistema financeiro brasileiro. A conclusão geral é positiva: os bancos permanecem capitalizados, resilientes e capazes de absorver choques adversos. No entanto, o relatório acende um sinal de alerta em um ponto específico e cada vez mais presente no cotidiano dos brasileiros: o endividamento das famílias.
Nos últimos anos, o crédito se expandiu de forma significativa. A digitalização do sistema financeiro, o crescimento das fintechs e o aumento da concorrência ampliaram o acesso a empréstimos e serviços bancários. Esse processo trouxe benefícios, como a inclusão financeira e a redução de custos em algumas modalidades. No entanto, também facilitou o avanço de um tipo de endividamento mais arriscado: o crédito ao consumo sem garantias.
Essas linhas possuem duas características preocupantes: juros elevados e maior inadimplência. Ao contrário do crédito consignado ou do financiamento imobiliário, que contam com garantias ou descontos automáticos em folha, o crédito não garantido depende integralmente da capacidade futura de pagamento do tomador. Quando ele cresce de forma acelerada, a vulnerabilidade financeira das famílias aumenta.
O ponto central destacado pelo FMI não é apenas o aumento da dívida, mas o avanço do comprometimento da renda com o pagamento dessas obrigações. O indicador conhecido como Debt Service to Income (DSTI), que mede a parcela da renda destinada ao serviço da dívida, encontra-se em patamar elevado e em trajetória ascendente. Em termos simples, uma parcela cada vez maior do salário das famílias está sendo consumida pelo pagamento de prestações, juros e faturas.
Esse quadro merece atenção porque reduz a capacidade de absorver choques. Uma perda de renda, um aumento dos juros ou uma desaceleração econômica podem transformar rapidamente um orçamento apertado em inadimplência. E o problema deixa de ser apenas individual, afinal, famílias excessivamente endividadas consomem menos, investem menos e tornam a economia mais vulnerável.
Nesse sentido, a experiência internacional mostra que educação, sozinha, não basta. É necessário combinar informação, transparência e regulação responsável. Por isso, o relatório do FMI recomenda medidas prudenciais, como a criação de limites para o comprometimento da renda com dívidas, impondo, por exemplo, um teto para o percentual do salário que pode ser destinado a prestações, além do fortalecimento das regras de concessão de crédito e da ampliação da educação financeira.
O desafio é encontrar equilíbrio. O crédito é um instrumento importante para o desenvolvimento econômico, mas seu crescimento precisa estar acompanhado de mecanismos que preservem a saúde financeira das famílias. Afinal, um sistema bancário sólido depende, em última instância, da solidez de quem está do outro lado do balcão.
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