Aprender para ser livre: idosos ganham independência e confiança com inclusão digital

Curso gratuito da Prefeitura de Belo Horizonte ensina tecnologia a pessoas com 60 anos ou mais e amplia autonomia e segurança no ambiente digital
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Aprender para ser livre: idosos ganham independência e confiança com inclusão digital
Aula de informática | Foto: Diário do Comércio/ Giulia Simmons

Para quem, até pouco tempo atrás, enxergava o ambiente digital como um universo muito distante, a aposentada Maria Rita de Oliveira, de 81 anos, está se saindo muito bem — e trazendo o próprio universo para a sua rotina. Em um celular emprestado, ela mostra um retrato de si mesma no espaço sideral, vestida de astronauta. Manipular imagens com inteligência artificial (IA) é um dos tópicos que ela e outros 220 idosos aprendem nos cursos de inclusão digital da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).

Esse número de alunos foi registrado somente no primeiro semestre deste ano, mas os cursos são oferecidos durante todo o ano, em diferentes módulos. Um deles é o de informática básica, com 180 horas e duração de três meses. Há também capacitações para aprender a utilizar celulares e aplicativos, além de conteúdos de introdução à inteligência artificial.

“Tem um ano que eu faço o curso e venho todos os dias da semana. Não tenho celular nem computador, mas agora estou tomando coragem para comprar. Acho importante aprender, né? Para não ficar dependendo dos outros. A gente tem que ser mais livre”, diz Maria Rita.

Ela mora sozinha em Belo Horizonte, é solteira, não tem filhos nem parentes próximos, vai completar 82 anos em setembro e não pretende parar de aprender. “Estou aprendendo IA e celular e sinto que melhorou até o meu cérebro, minha memória”, relata.

Maria Rita
Maria Rita | Foto: Diário do Comércio/ Giulia Simmons

A disposição de Maria Rita para aprender novas habilidades, independentemente da fase da vida, é um dos efeitos percebidos nas turmas de inclusão digital. Outra consequência é a convivência proporcionada pelas aulas, como observa o gerente do Centro de Qualificação em Tecnologia da Informação, Thiago Ferreira.

“Tem essa questão terapêutica também. Vários idosos vivem sozinhos e, quando vêm para cá, além de aprender, podem conversar com outras pessoas. Tem gente que até tem filhos, mas, na correria do dia a dia, eles não conseguem dar atenção. Então, essa pessoa se sente muito sozinha, pode ter até uma depressão. E acredito que aqui tem essa convivência que pode ajudar”, comenta.

A instrutora Wanessa Maria dos Santos acompanha de perto o aprendizado de Maria Rita, a quem cita como referência. “Mesmo sem celular, ela nunca falta às aulas, pergunta, se dedica e faz tudo o que a gente pede para fazer. Ela usa um celular emprestado, às vezes até o meu mesmo, e tem se destacado muito nas aulas”, diz.

Wanessa dos Santos
Wanessa dos Santos | Foto: Diário do Comércio/ Giulia Simmons

Ela percebe que a principal demanda do público 60+ é aprender a usar o celular. “Muitos idosos ainda não sabem fazer ligação ou mandar mensagem no WhatsApp, nem tirar uma foto ou compartilhar a localização com o filho, por exemplo. Também há quem chegue aqui para aprender a mexer no computador porque fica sozinho em casa, sem ninguém para conversar, e tem o equipamento ali que poderia usar para passar o tempo, fazendo uma edição simples de fotos, por exemplo, e se distraindo”, explica.

Aprender para conquistar autonomia

Há uma mudança que acontece aos poucos à medida que esses alunos avançam no aprendizado. No lugar das dúvidas e do medo da tecnologia, surgem o conhecimento e a curiosidade. O que antes era um “bicho de sete cabeças” se torna uma ferramenta útil, uma aliada. Eles ganham autonomia e se sentem mais preparados para lidar com um mundo cada vez mais digital.

“Eles saem daqui com uma autoestima maior porque passam a não depender mais de alguém para fazer as coisas de que precisam. Quando pedem para um filho, muitas vezes ele não tem tempo para fazer na hora ou apenas pega o celular e faz para o idoso, em vez de ensinar. Então, ver esses alunos independentes e capazes de realizar as próprias demandas é bastante gratificante”, relata a professora.

Aula de inclusão digital
Uma aula da professora Vanessa | Foto: Diário do Comércio/ Giulia Simmons

A aluna Telma Emília da Silva, de 63 anos, também é frequentadora assídua do curso e acredita que aprender a lidar com as novas tecnologias transformou sua vida.

“Estou gostando muito do curso, percebo que é importante para o crescimento da gente. Tenho um colega aqui, por exemplo, que teve AVC isquêmico, e as aulas têm ajudado muito ele. Tudo o que a gente aprende é uma terapia também, porque trabalha a mente. E, quando a gente consegue fazer alguma coisa sozinho, é uma alegria e uma bênção”, conta.

Inclusão digital também é proteção

O projeto de inclusão digital da Prefeitura existe há algum tempo, mas, recentemente, tem ganhado ainda mais importância, “justamente pela quantidade de golpes que têm acontecido”, comenta Thiago Ferreira.

“A gente sempre tenta trabalhar a informática como meio. Ensinamos desde ligar o computador e entender como funciona o sistema operacional do celular até mexer nos aplicativos e nos meios pelos quais as pessoas se comunicam hoje, como WhatsApp e redes sociais. Também temos um módulo de inteligência artificial, em que eles aprendem, por exemplo, a manipular imagens e trocar o fundo de uma foto. Sabendo produzir essas imagens e esses vídeos, eles entendem que hoje a gente não pode acreditar em qualquer conteúdo da internet e que tudo tem que ser verificado”, observa.

Thiago Ferreira
Thiago Ferreira | Foto: Diário do Comércio/ Giulia Simmons

Há também módulos de edição de textos, planilhas eletrônicas, apresentações e até inteligência artificial focada no empreendedorismo. “Como utilizar a IA para reduzir o custo na hora de empreender, por exemplo”, completa.

Os cursos acontecem na unidade principal do Programa de Inclusão Digital da Prodabel, no bairro Ipiranga, mas também são oferecidos em diversas regiões da cidade. Há turmas mistas, que reúnem desde adolescentes até idosos, e turmas específicas para a população 60+.

Unidade de Inclusão Digital da Prodabel
Unidade de Inclusão Digital da Prodabel | Foto: Diário do Comércio/ Giulia Simmons

Além do eixo de capacitação, o programa conta com uma frente de conectividade, que fornece acesso gratuito a Wi-Fi em vilas e favelas, praças, escolas, Centros de Referência da Assistência Social (Cras) e outros espaços públicos.

E também há um eixo de doação de computadores. A Prodabel recebe equipamentos, que são reaproveitados, recondicionados e doados tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, quando há o intuito de promover a inclusão digital, como na criação de um telecentro para atender uma comunidade. Para pessoas físicas, há critérios estabelecidos para a doação que priorizam aquelas em situação de vulnerabilidade social.

Telma Emília ganhou recentemente um computador pelo programa. “Era o meu sonho. Hoje, fico vendo vídeos no YouTube e também treinando o que aprendo nas aulas, porque a mente da gente é mais lenta, né? Então, temos que praticar para melhorar”, relata.

Como participar dos cursos

Mas como alcançar um público que ainda tem pouca afinidade com a tecnologia? Além da divulgação e das inscrições on-line, a PBH apresenta os cursos na mídia, na TV aberta e em ações presenciais, como panfletagens. Maria Rita, por exemplo, ficou sabendo da possibilidade de aprender a usar o celular em uma ação da Prefeitura enquanto passeava pelo Parque Municipal.

A professora Wanessa dos Santos também comenta que muitos idosos chegam ao curso por indicação de outros alunos, o famoso “boca a boca”.

Sala de aula de inclusão digital para idosos
Aula na unidade de Inclusão Digital da Prodabel | Foto: Diário do Comércio/ Giulia Simmons

Também há informações disponíveis no site da PBH e no Instagram da Prodabel. As inscrições podem ser feitas por telefone, WhatsApp, internet ou presencialmente na Unidade de Inclusão Digital, localizada na Rua José Clemente Pereira, 440, no bairro Ipiranga. Mais informações podem ser obtidas no Centro de Referência da Pessoa Idosa, na Rua Perdizes, 336, no bairro Caiçara.

As aulas são oferecidas presencialmente nas dez regionais da cidade ou na modalidade EAD.

Mais informações e inscrições:

  • WhatsApp: (31) 98888-3238;
  • Telefone: (31) 3277-7161;
  • Presencialmente: Unidade de Inclusão Digital – Rua José Clemente Pereira, 440, bairro Ipiranga;
  • On-line: neste link
Sobre o autor

Juliana Baeta

Subeditora do portal Diário do Comércio desde 2024. Jornalista (Newton Paiva) e especialista em Comunicação Pública e Governamental (PUC Minas). Agraciada nos prêmios Mol de Jornalismo para a Solidariedade e CDL/BH de Jornalismo.

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