Economia

Empreendedorismo 60+ ganha força em Minas impulsionado por sonhos, experiência e oportunidades

Número de empreendedores com mais de 60 anos cresceu 18,9% em um ano no Estado; especialistas apontam que experiência, propósito e busca por qualidade de vida impulsionam essa nova geração de empresários
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Empreendedorismo 60+ ganha força em Minas impulsionado por sonhos, experiência e oportunidades
Da esquera para a direita: Maura Oliveira (Foto: Arquivo Pessoal); Vera Melo (Arquivo Pessoal); Virgílio Resende (Foto: Divulgação / 5àsec)

Cada vez mais pessoas com 60 anos ou mais estão abrindo o próprio negócio em Minas Gerais movidas pela oportunidade, e não apenas pela necessidade. Em muitos casos, o empreendedorismo surge após a aposentadoria como forma de realizar um sonho antigo, colocar em prática a experiência acumulada ao longo da carreira ou conquistar mais autonomia financeira.

Dados da edição mais recente do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostram que, em 2025, apenas 32,5% dos empreendedores sênior, com idade entre 65 e 74 anos, iniciaram um negócio por necessidade no Brasil. O índice é 9,5 pontos percentuais inferior ao registrado entre empreendedores de 18 a 64 anos, cuja taxa chega a 42%.

O gerente de Portfólio e Comercialização do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), Ricardo Pereira, explica que esse público enfrenta desafios semelhantes aos de qualquer outro empreendedor. A diferença está na experiência acumulada ao longo da carreira e na rede de relacionamentos construída ao longo da vida, fatores que costumam representar uma vantagem competitiva.

Em Minas Gerais, havia 510,48 mil donos de negócios com mais de 60 anos no primeiro trimestre deste ano, segundo dados do Sebrae. O contingente representa um crescimento de 18,95% em relação ao mesmo período de 2025, quando o Estado contabilizava 429.166 empreendedores nessa faixa etária. O perfil predominante é formado por homens (74,4%), pessoas brancas (54%), com ensino fundamental incompleto (45,4%) e chefes de domicílio (69,6%).

Para o gerente de Análise e Planejamento Financeiro do Banco Mercantil, Sérgio Batista, empreendedores com mais de 60 anos chegam ao mercado com diferenciais competitivos importantes. Entre eles estão a bagagem profissional, o conhecimento acumulado sobre o setor em que atuam e uma rede de relacionamentos consolidada ao longo da carreira.

“Do ponto de vista das necessidades de mercado, esse perfil busca soluções financeiras que reconheçam sua experiência e ofereçam condições de crédito compatíveis com a solidez de seu histórico”, afirma.

Segundo Batista, esse público também demanda soluções digitais que conciliem tecnologia e facilidade de uso. Outra necessidade é um atendimento consultivo capaz de apoiar a evolução da gestão financeira e incentivar a inovação nos negócios.

Empreender para realizar sonhos

A empreendedora Maura Oliveira, de 70 anos.
Foto: Arquivo Pessoal Maura Oliveira

Segundo Ricardo Pereira, assim como ocorre em outras faixas etárias, o principal motivo para empreender continua sendo a busca por ganhos econômicos. No entanto, entre pessoas com mais de 60 anos, também é comum o desejo de realizar um antigo sonho e atuar em uma área que nem sempre está relacionada à formação ou à trajetória profissional.

Nesses casos, o especialista recomenda cautela, principalmente em relação ao valor investido. A orientação é evitar comprometer toda a reserva financeira acumulada ao longo da vida e iniciar o negócio de forma gradual, reduzindo os riscos de eventuais perdas.

Na prática, essas diferentes motivações aparecem nas histórias de empreendedores que reinventaram a vida profissional após os 60 anos. Enquanto alguns aproveitaram a aposentadoria para realizar um sonho antigo, outros encontraram no próprio negócio uma forma de permanecer ativos ou de construir uma nova carreira.

A empreendedora Maura Oliveira, de 70 anos, trabalhou como contadora por 46 anos, mas sempre sonhou em atuar na gastronomia. Aos 66 anos, decidiu fazer um curso de especialização na área e, desde dezembro do ano passado, passou a dedicar cada vez mais tempo à marca Maura Cozinha Afetiva. “Passou de uma coisa pessoal para algo mais estruturado e voltado para o negócio em si”, conta.

Já a trajetória empreendedora de Vera Melo, de 63 anos, começou ainda em Recife (PE), onde preparava alimentos e confeccionava roupas para pronta-entrega em casa. Após se mudar para Belo Horizonte com o marido, recomeçou vendendo doces e oferecendo aulas de gastronomia na própria residência. “Eu sempre fui empreendedora, sempre vendia alguma coisa e estou até hoje no ramo”, declara.

Hoje, Vera é pós-graduada em gastronomia e já planeja cursar mestrado e pós-doutorado na área de nutrição. Também apresenta o programa de rádio ‘Chef Vera Melo Responde’, assina uma coluna em revista especializada e comercializa uma linha de temperos criada durante a pandemia de Covid-19. “Eu não consigo ficar parada”, resume.

O engenheiro civil Virgílio Lara Resende, de 64 anos, tornou-se franqueado da rede de lavanderias autônomas 5àsec depois de enfrentar dificuldades para se recolocar no mercado de trabalho. Há cerca de cinco anos, iniciou a operação com duas funcionárias, uma máquina de lavar e outra de secar. Hoje, a unidade está prestes a contratar a sétima colaboradora, opera com quatro máquinas e atende uma carteira de 6,3 mil clientes.

Resende destaca ainda que, com exceção da gerente, todas as colaboradoras têm entre 45 e 60 anos. Segundo ele, a empresa praticamente não enfrenta problemas de rotatividade. “Elas têm mais comprometimento e responsabilidade. Algumas já estão aposentadas e veem o trabalho como uma fonte complementar de renda”, observa.

Experiência vira vantagem competitiva

Empreendedora Vera Melo.
Foto: Arquivo Pessoal Vera Melo

O estudo do Sebrae mostra que o setor de serviços concentra a maior parcela dos empreendedores sênior em Minas Gerais, com 34,8% do total. Na sequência aparecem a agropecuária (20,9%) e o comércio (19,3%). A maioria (81,9%) atua por conta própria, enquanto 19,9% são empregadores. Entre aqueles que possuem funcionários, 67,9% mantêm equipes de um a cinco colaboradores.

Ricardo Pereira observa que muitos profissionais continuam prestando serviços, como terceirizados, para as mesmas empresas onde atuavam antes da aposentadoria. “Há profissões que exigem anos de dedicação para alcançar um alto nível de especialização. Esse conhecimento não se perde com o tempo. Pelo contrário: tende a crescer com a experiência acumulada e a rede de relacionamentos construída ao longo da carreira”, afirma.

Para Maura Oliveira, o conhecimento adquirido ao longo da carreira como contadora tem sido decisivo na gestão da Maura Cozinha Afetiva. Segundo ela, não depender de terceiros para cuidar da parte financeira é uma vantagem importante. “Essa parte de projeção de custos e de lucro não será muito difícil para mim”, avalia.

Já Resende conta que trabalha desde os 15 anos e que o pai, hoje com 92, continua ativo, dirigindo e trabalhando. Segundo ele, a família sempre encarou o trabalho como parte da vida, e não como um peso.

O empreendedor também lembra que atuou durante duas décadas na área de planejamento de projetos industriais, experiência que hoje aplica na gestão da lavanderia. “Tudo o que aprendi nesses 20 anos foi fundamental para o sucesso do negócio. Mas o principal continua sendo a presença física na loja todos os dias”, diz.

Os dados do Sebrae mostram ainda que 90,2% dos empreendedores sênior em Minas Gerais já têm pelo menos um ano de atividade. Além da maior longevidade dos negócios, esse público registra o maior rendimento médio real entre os empreendedores do Estado: R$ 4.204,89 no primeiro trimestre de 2026, valor 8,17% superior à média mineira (R$ 3.887,32). Ao mesmo tempo, trabalham menos horas por semana: são, em média, 36 horas, contra 39 horas entre os demais empreendedores.

O desafio da transformação digital

Franqueado da rede de lavanderias autônomas 5àsec, Virgílio Lara Resende, de 64 anos.
Virgílio Lara Resende | Foto: Divulgação 5àsec

Outro desafio apontado pelo gerente de Portfólio e Comercialização do Sebrae Minas, Ricardo Pereira, é a adaptação às novas tecnologias. “O empreendedor sênior precisa compreender esse novo ambiente de negócios, que envolve ferramentas de comércio eletrônico, inteligência artificial (IA) e soluções digitais para gestão e vendas”, afirma.

Segundo Pereira, também é fundamental definir o principal canal de distribuição, a estratégia de vendas e conhecer o perfil do público-alvo, bem como o mercado em que pretende atuar.

Vera Melo acredita que muitos profissionais com mais de 60 anos ainda demonstram resistência às mudanças tecnológicas e às novas formas de trabalhar. Segundo ela, isso também acontece na gastronomia. “Muitos cozinheiros querem fazer tudo da forma como aprenderam décadas atrás e acabam encontrando dificuldades. Mas, com paciência, qualquer pessoa consegue se adaptar”, afirma.

Maura Oliveira também reconhece que a tecnologia é um dos principais desafios da nova fase profissional. Ela pretende ampliar a divulgação da Maura Cozinha Afetiva nas redes sociais e admite que contará com a ajuda das filhas para isso. O objetivo é expandir as vendas por meio do delivery. “Tenho que ter um empurrãozinho nas redes sociais, porque hoje em dia tudo gira em torno disso”, afirma.

Para Sérgio Batista, do Banco Mercantil, além dos desafios comuns a qualquer empresa, como gestão tributária e busca por eficiência operacional, o empreendedor sênior enfrenta questões específicas relacionadas ao planejamento patrimonial e à sucessão dos negócios.

“Muitas vezes, eles lideram empresas enquanto planejam a transição para novas fases da vida econômica, o que exige um equilíbrio estratégico entre a expansão dos negócios e a preservação do patrimônio”, relata.

Batista observa que esse movimento é ainda mais evidente em Minas Gerais. Segundo dados do Sebrae, os empreendedores com mais de 60 anos já representam cerca de 12% dos donos de pequenos negócios no Estado, acompanhando a tendência observada na região Sudeste. “O cenário mineiro é culturalmente propício à longevidade ativa, impulsionado por uma tradição de solidez e inovação nos negócios”, avalia.

Mercado abre espaço para novos projetos

Ricardo Pereira observa que o comportamento do consumidor também tem criado novas oportunidades para os empreendedores mais experientes. Segundo ele, cresce entre os mais jovens a busca por produtos e experiências que despertam nostalgia e valorizam o contato presencial, em contraposição ao ambiente digital. “O público 60+ costuma ter mais paciência para oferecer esse tipo de experiência. É uma grande vantagem competitiva”, afirma.

Para Maura Oliveira, o mercado é competitivo, mas continua oferecendo espaço para novos empreendedores. Ela acredita que o setor de alimentação reúne boas oportunidades justamente por atender a uma necessidade básica da população. Apesar disso, admite que os resultados da Maura Cozinha Afetiva ainda estão abaixo do esperado, já que, até recentemente, conciliava o negócio com o curso de gastronomia. “Mas acredito que daqui para frente vai dar para engrenar e colocar o negócio em um campo mais profissional”, diz.

Enquanto isso, Vera Melo afirma que o empreendedorismo lhe proporcionou conquistas importantes, como a compra do apartamento, móveis para a casa e a realização de viagens. Mesmo aposentada, ela continua atuando como microempreendedora individual (MEI), emitindo notas fiscais e contribuindo para a Previdência. “Eu fiz o MEI para trabalhar e não para me aposentar. Estou feliz com minha aposentadoria, mas continuo trabalhando”, ressalta.

Os dados do Sebrae mostram, no entanto, que a maioria (68,9%) dos empreendedores sênior em Minas Gerais ainda atua sem registro no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). Além disso, 66,2% não contribuem para a Previdência Social.

Virgílio Resende afirma que a lavanderia vem apresentando o retorno esperado. Para ele, a maior satisfação é gerar emprego e renda para outras pessoas. “É um negócio muito rentável. Estou ajudando seis famílias e também obtendo um retorno financeiro que me permite viver com tranquilidade, ajudar meus filhos e viajar”, afirma.

O empresário acredita que uma trajetória financeira estável e um bom histórico de crédito facilitam o acesso ao financiamento. Em contrapartida, reconhece que os empreendedores mais jovens costumam ter maior disposição física. Ele lembra que, no início da operação, fazia pessoalmente as entregas, rotina que hoje já não seria compatível com o porte alcançado pela empresa.

Para Pereira, a tendência é que o empreendedorismo entre pessoas com mais de 60 anos continue crescendo, impulsionado tanto pelo envelhecimento da população (portanto, com um volume crescente de clienres com esse mesmo perfil), quanto pelo desejo de permanecer ativo e realizar novos projetos. “A pessoa com 60 anos se sente apta. Muitos continuam trabalhando porque isso mantém a mente ativa e dá propósito à vida”, afirma.

Segundo ele, esse público demonstra que é possível conciliar diferentes objetivos, como administrar um negócio, viajar, aprender e construir novos projetos mesmo após a aposentadoria.

Rede de apoio fortalece novos empreendedores

Empresário sênior.
Foto: Reprodução Adobe Stock

Para o gerente de Análise e Planejamento Financeiro do Banco Mercantil, o sistema financeiro evoluiu para acompanhar as mudanças demográficas do País, mas ainda há espaço para ampliar o apoio aos empreendedores com mais de 60 anos. “O envelhecimento da população e o crescimento do empreendedorismo sênior mostram que a demanda por serviços integrados é uma tendência estrutural”, avalia.

Segundo Batista, ainda há espaço para ampliar a oferta de capital de giro, investimentos de longo prazo, proteção patrimonial e canais de atendimento mais inclusivos. Para ele, o empreendedor sênior busca instituições que reconheçam sua experiência, capacidade de gestão e potencial de crescimento.

O gerente defende que o papel das instituições financeiras deve ir além da concessão de crédito. Segundo ele, é preciso atuar como parceiro estratégico, oferecendo produtos e serviços adequados ao momento de vida e às necessidades operacionais desse público.

“Isso se traduz em oferecer análises de crédito personalizadas, plataformas seguras, canais acessíveis e orientação especializada”, acrescenta.

Batista avalia que conteúdos de educação financeira e atendimento consultivo contribuem para aumentar a sustentabilidade e a longevidade dos pequenos negócios liderados por empreendedores seniores.

Já o gerente de Portfólio e Comercialização do Sebrae Minas lembra que a entidade também disponibiliza uma rede de apoio aos empreendedores seniores. Entre as iniciativas está o Sebrae Play, plataforma gratuita com cursos e conteúdos voltados à gestão de pequenos negócios.

Segundo Pereira, as maiores demandas desse público estão relacionadas às áreas de marketing digital e finanças. O Sebrae também oferece consultorias especializadas e projetos voltados para diferentes segmentos da economia.

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