Memória do Cinema
O fantasma de David Lynch
Revi David Lynch no cabo. Era madrugada, e exibia uma retrospectiva de seus filmes, a primeira desde sua morte, em 2025. Lá estava ele, o artista, envolto em sua própria tapeçaria de ilusões, como se desde sempre habitasse outro plano.
Resta agora apenas o espaço rarefeito, como um frame perdido de “Veludo Azul”. Naquela noite, para mim, encerrou-se um mistério que ele próprio parecia orquestrar, enigmático, como o destino de Laura Palmer em “Twin Peaks”.
Filme de amor
Recomendo, para ontem, a espiada em “O Sabor da Vida”, de 2023, do realizador franco-vietnamita Trần Anh Hùng.
É sempre intrigante descobrir um filme francês de um diretor de uma cultura estrangeira e totalmente discrepante.
Comer desperta a libido. E ele filma.
É a dopamina governando a biologia. Uma suculenta e portentosa codorna quem o diga: é dos prazeres mais inconfessáveis.
Juliette Binoche e Benoît Magimel preparam um banquete de generosidade homérica. Há tensão sexual. Neles, na gente.
Gravitam os personagens. O bailado da câmera evoca o voo de um inseto diante do plano, esculpindo constantes variações na luz. Encenação simples, mas muito evocativa. Há pormenores tão bonitos.
É cinema sensorial, saboroso, sensual. Dos vapores aos ingredientes, tudo é filmado com raridade. Binoche reina.
O filme celebra a gastronomia. E os ritos do amor. E do sexo.
A técnica do desapontamento
Outro dia, um colega me provocou: o que faz um ator ser digno de nota? Simples: o que se está interpretando? Vanessa Redgrave, divorciada, em “Um Mês no Lago”. Ela se interessa por um aristocrata sexagenário. Uma Thurman está no mesmo hotel e o tal sessentão só tem olhos para ela. Quando o sujeito pretere Vanessa para sair com Uma, olhem o semblante de Vanessa. Não se vê igual por aí. Em nenhuma atriz. É só dela. Um desapontamento visível, mas contido, sem o mínimo de piedade de si própria.
Outro exemplo é a mágoa, o trunfo poderoso do cinema, de Laurence Olivier com Jennifer Jones em “Perdição por Amor”, quando ela, passando a última calça boa dele, a estraga.
Mais um: Martin Landau, em “Crimes e Pecados”, de Woody Allen, num papel em que ele carrega no rosto o conhecimento de que matou a amante, sem mostrar a ninguém, e depois dizer, na maior das simplicidades, que nos faz gelar, que remorso, bem, não existe.
O século do cinema
Nos anos 60, nenhuma mulher, no cinema, mexia no cabelo como Anouk Aimée.
Nosso cineasta Karim Aïnouz contou que, certa vez, em Cannes, no jantar oficial da premiação, dividiu a mesa com Aimée.
Disse não conseguir comer. Só tinha olhos para a atriz de Federico Fellini e Bernardo Bertolucci, ela que se destacou pela discrição no crepúsculo de sua carreira.
Foi assim que se fez estrela, premiada, considerada um dos grandes símbolos do cinema francês no século XX e que deixou trabalhos memoráveis em filmes a perder de vista.
Foi assim também que morreu, há exatos dois anos, ao que se diz: em sua casa, em Paris, na companhia da família, “tranquilamente, de velhice”.
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