A virada como metáfora
O Brasil foi para o intervalo perdendo. Um erro defensivo, um gol sofrido, e o silêncio que tomou Houston no fim do primeiro tempo resumiu bem o estado de espírito de um país que há 24 anos não vence uma Copa do Mundo. Foi preciso o segundo tempo para que a seleção crescesse, impusesse seu ritmo e encontrasse, nos acréscimos, o gol de Martinelli, que virou o placar e garantiu a classificação. Brasil 2, Japão 1. Oitavas de final. E, para milhões de brasileiros, algo muito mais do que isso.
Há uma razão pela qual o futebol resiste a todas as crises. Não é escapismo simples, como os críticos costumam invocar, como se alegria fosse desvio de atenção. É que o jogo revela caráter. E o caráter de uma seleção que vai a campo perdendo sofre, reage e vira no fim diz algo que os indicadores econômicos não sabem dizer: que ainda é possível dar a volta por cima.
O Brasil de 2026 vive uma equação difícil. A inflação corrói o poder de compra das famílias, a guerra que se arrasta na Europa e no Oriente Médio mantém os mercados em alerta, e a corrida eleitoral já produz o ruído que antecede todas as grandes disputas: polarização, desconfiança nas instituições, narrativas concorrentes sobre o que o País foi e o que pode vir a ser. É nesse contexto que 200 milhões de pessoas pararam para assistir a um jogo de futebol numa tarde de segunda-feira.
Seria ingenuidade política interpretar essa adesão coletiva como alienação. O brasileiro que parou o trabalho, abriu o celular, gritou com Casemiro e segurou o fôlego até o gol de Martinelli não estava esquecendo suas contas. Estava, por algumas horas, pertencendo a algo maior do que elas. E isso, em tempos de fragmentação social, não é pouca coisa.
São 24 anos sem levantar a taça, cinco edições sem ir além das quartas de final. O hexacampeonato deixou de ser promessa e virou cobrança. E cobranças, em ano eleitoral, têm peso específico: a narrativa do Brasil grande, do Brasil que vence, interessa a todos os campos políticos. Nenhum candidato vai querer estar do lado errado quando a taça for erguida, ou não erguida. O futebol, neste ciclo, não é apenas esporte. É também espelho.
Ancelotti sabe que o segundo tempo desta segunda-feira mostrou uma seleção capaz, mas que o primeiro tempo mostrou uma seleção vulnerável. O eleitor brasileiro assiste à sua própria disputa com a mesma ambivalência: há potencial, há história acumulada, há talento individual inegável. Falta, frequentemente, consistência.
O que o Brasil fez na segunda-feira (29) em Houston foi o que um bom time faz quando o jogo fica difícil: não entrou em pânico, ajustou, voltou a jogar e encontrou a virada. Não é a lição de que tudo sempre se resolve no fim, porque nem sempre se resolve. Mas a de que se render no intervalo não é opção para quem ainda tem 45 minutos à frente.
A Copa continua. O Brasil, por ora, também.
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