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Antes da bola rolar: a disputa da imagem na Copa de 2026

Além do futebol, uniformes de Congo, Japão, Uruguai, Espanha e Brasil ditam tendências e comunicam valores culturais
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Antes mesmo de a bola rolar, algumas seleções já haviam vencido a primeira disputa da Copa do Mundo de 2026: a da imagem. Mais uma vez, uma grande competição esportiva transforma-se também em uma vitrine de identidade, cultura e imagem nacional. Vale observar os uniformes de algumas seleções de futebol que integram a Copa do Mundo da Fifa 2026, entre elas a República Democrática do Congo, Japão, Uruguai, Espanha, e, claro, do Brasil. Como já vimos durante as Olimpíadas, o vestuário tornou-se uma poderosa ferramenta de comunicação de valores, tradição e personalidade. Em muitos casos, os trajes de chegada chamaram mais atenção do que os uniformes usados em campo.

Nosso primeiro destaque vai para a seleção da República Democrática do Congo, sem dúvida a seleção que vence pelos looks mais elegantes e impactantes. Os africanos, transmitindo não só mensagens culturais, mas também força, agilidade, unidade através do design de seus ternos na chegada aos Estados Unidos. Os jogadores desembarcaram usando ternos pretos com detalhes em estampa de leopardo, bolsas da mesma estampa e broches metálicos que fazem referência ao apelido da equipe, “Leopards”. O visual criado por Alvin Mak mexeu e incendiou as redes sociais e caiu no gosto da imprensa especializada em moda. O estilista também honrou a tradição da La Sape – Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes, movimento cultural do Congo que valoriza a elegância masculina, a alfaiataria e o vestir como forma de afirmação pessoal e social.

Já a seleção japonesa, “os samurais azuis”, adotou um visual minimalista usando os ternos clássicos da “Samurai Blue Collection 2026”, desenvolvida pela grife britânica de luxo Dunhill. Parceira há 25 anos, a marca priorizou uma estética de alfaiataria clássica, trazendo como mensagem disciplina, tradição e elegância. Ao terno clássico de três peças, a grife acrescentou um colete transpassado levemente assimétrico, criando um ponto de modernidade sem romper com a elegância clássica. Tudo confeccionado com exclusividade em um mix de lã Super 130 e cashmere em azul-marinho com padrões discretos de xadrez. Foi bonito observar a seleção desembarcar no México com este estilo. Não é difícil perceber a mensagem que a equipe passou para o público que acompanhou a chegada. Muito elogiada nas redes sociais pela imagem de classe e educação.

Nosso vizinho Uruguai também explorou a identidade nacional usando lã merino em belos ternos desenhados pela estilista local Gabriela Hearst. Com blazer de corte contemporâneo, calças de alfaiataria com caimento mais confortável, camisas claras, com gravatas discretas ou sem gravata e sapatos clássicos em couro, os jogadores se apresentaram um pouco mais informais. O traje traduz a essência do futebol uruguaio, ou seja, competitividade sem ostentação.

Os Espanhóis mostraram sua força com um estilo mais fashion da marca Loewe. Os looks combinam alfaiataria contemporânea e sofisticação, aproximando a equipe do universo do luxo. Ao vestir uma marca que nasceu em Madri, em 1846, e é hoje uma referência mundial em couro, artesanato e design contemporâneo, a seleção apostou na moda. Nada de ternos com cortes tradicionais, ao contrário, silhuetas mais leves, ombros menos estruturados, cortes amplos e confortáveis em tecidos fluídos, em sintonia com as proporções da moda do momento. A mensagem: elegância não precisa necessariamente estar ligada à formalidade tradicional. A Espanha demonstra que a alfaiataria pode ser contemporânea, confortável e até fashion sem perder sofisticação e reforçando uma imagem de criatividade, cultura e modernidade.

Para os brasileiros, a expectativa em relação ao uniforme oficial era alta. Especialmente após o mega sucesso dos modelos usados pelas equipes durante as Olimpíadas de Inverno deste ano, quando o Brasil firmou identidade e marcou presença em uma competição onde um país tropical teria poucas chances de medalha. Já a equipe do principal esporte nacional não causou impacto com seu vestuário oficial. O look criado por Ricardo Almeida, uma das principais referências da alfaiataria masculina brasileira, acabou surpreendendo menos do que se esperava, não buscou a identidade verde e amarela. Buscou revelar o presente, atender ao público mais jovem e usou um tom verde acinzentado.

O visual foi muito criticado pela ausência das cores tradicionais do Brasil, pela modelagem ampla considerada excessiva por alguns, pela pouca percepção de brasilidade e pela aparência que muitos compararam a uniformes corporativos. A ideia, segundo o próprio estilista, foi representar um Brasil atual, um país informal, mais ligado à moda e menos preso às convenções da alfaiataria clássica. A proposta transmitiu modernidade e descontração, mas não foi suficiente para construir uma identidade nacional marcante. O público ficou dividido: o uniforme institucional deve reforçar a tradição ou representar o presente? Na nossa leitura, a proposta não conseguiu equilibrar inovação e identidade nacional.

Em grandes eventos internacionais, a imagem fala antes da performance. A Copa do Mundo de 2026 mostra que, muito antes do primeiro gol, algumas seleções já haviam conquistado uma importante vitória: a de representar visualmente a identidade de seus países.

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