Plano Geral

A Errância e o Esplendor: O Cinema de Alain Delon

Compreenda a essência de Alain Delon, a estrela que se tornou um símbolo do cinema, com charme e beleza incomparáveis.
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00

Prestes a completar um ano sem Alain Delon, a sétima arte ainda lida com a incômoda sensação de que tudo não passou de um blefe. Afinal, para os que acreditavam que ele fosse imortal, sua morte deve ter parecido um erro de script.

Por trás do mito, afinal, habitava o homem; e por trás das luzes, projetavam-se as sombras. Sua infância foi instável, marcada pelo divórcio dos pais. Foi açougueiro, garçom, seguido de quatro anos de serviço na Guerra da Indochina, que cumpriu nos fuzileiros antes de se meter com cinema.

Desse anonimato emergiu o artista de carisma raro e beleza insolente, o sedutor por distinção em mais de 80 filmes de relevo. Delon tornou-se a figura tutelar do cinema europeu durante o meio século em que durou sua carreira. Há muito afastado das câmeras, vivia recluso a 100 quilômetros ao sul de Paris. Na sua propriedade de muros altos e trepadeiras, mandou construir uma capela. É lá que queria ser sepultado.

Nas mil geografias daquele rosto sulcado pelos dias, assim como em sua arte, o tema da errância sempre se impôs. É o que se vê em O Leopardo (1963), de Luchino Visconti, em que ele interpreta o sobrinho do príncipe de Salinas, que, envolto em intrigas na Sicília do século XIX, vaticina a frase que ficou célebre: “As coisas precisam mudar para que tudo continue como está”.

Sob a batuta de Antonioni, filmou O Eclipse (1962) ao lado de Monica Vitti, que interpreta uma mulher em busca de refúgio em Roma após um divórcio. Lá, ela se envolve com o personagem de Delon, um jovem e ambicioso operador da bolsa de valores. Ambientado em uma época de tensão pela ameaça nuclear, assim como na nossa, o caso não pode ser lá muito ameno.

Num outro Visconti clássico, Rocco e Seus Irmãos (1960), a sequência em que Renato Salvatori e Delon rolam aos prantos na cama é emoldurada por um travelling que evoca um autêntico balé. A vertigem da cena nos joga em outra dramaturgia: aquela que esconde o recôndito da dor em cada movimento, em cada arquear de sobrancelhas e no cerrar dos punhos. O impacto é devastador.
Há algum tempo, antes de descer à sepultura, o ator vinha se despedindo devagarinho. Primeiro, do sem-número de fãs que angariou; depois, das redes sociais que deletou; e, por fim, da vida, naquilo que ela carrega de fugacidade e permanência.

Nos anos de esplendor do cinema, Alain Delon, com aqueles olhos azuis tão bonitos quanto um postal italiano, agregou um certo toque de melancolia, de fim de século. Um ator que fez de seus personagens a súmula do atributo poético, como quem sempre quis dizer que, no fim da história, o destino do homem é perder.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas