Giro pelo mundo

Dos insultos e negócios

Como as ofensas entre presidentes afetam nosso dia a dia e o respeito entre as populações de Brasil e Argentina
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Parece que o que ensinamos a nossas filhas, filhos, netas e netos não vale para os presidentes de nossos países. Não fale palavra feia. Mas presidente pode? O fato é que estamos assistindo perplexos já há bastante tempo a uma troca de insultos e falta de civilidade entre presidentes, no nosso caso entre Brasil e Argentina especificamente, que passam dos limites da civilidade das populações dos dois países. Nós os cidadãos não somos assim. E mesmo que discordemos em futebol, onde não há limites, nos respeitamos e não demos procuração aos presidentes para se xingarem e expressarem suas opiniões privadas, verdadeiras ou não, para prejudicar nada mais e nada menos do que os nossos negócios, entre outros.

Vivemos em um período em que as personalidades presidenciais do eixo Brasil-Argentina-Estados Unidos falam e dizem uns aos outros o que querem. Claro que a parte ofendida publicamente tem que reagir. Interessante é que no passado as ruas ganhavam esses protestos, mas hoje são as redes sociais os elementos que contam. Estudantes na rua queimando bandeiras, já era. E operário hoje cuida do seu emprego, pouco se lixando se o presidente foi chamado de ladrão. O nacionalismo mudou.

O fato é que o Brasil está em conflito direto com dois de nossos maiores parceiros, EUA e Argentina. No caso americano, tudo indica que as novas tarifas vão ficar e que a discussão sabiamente orientada pelo Itamaraty passou para a OMC e no Brasil o assunto virou parte do debate eleitoral. Mas, é bom lembrar os nomes com que nossa primeira-dama chamou o empresário número um do mundo, Elon Musk. Ela esqueceu, ele, jamais.

O Brasil, ou seja, nossos políticos deveriam olhar antes de abrirem a boca, os interesses do País. Cala-te Magda. Com a Argentina temos uma aliança industrial que nos beneficia, exportamos produtos industrializados, que a China não compra, e investimentos. Sem falar em turismo. Especificamente em toda a América Latina temos superávit na balança comercial, 14 bilhões de USD e mais de 30 bilhões de investimentos.

Aí, nosso presidente em dois anos só foi à posse de seus companheiros no México e no Uruguai, não foi à assinatura do acordo Mercosul-UE, nem na posse de outros oito presidentes. Divergências ideológicas não impediram, no regime militar, de ter relações com a União Soviética, China e outros. Nossos vizinhos também investem no Brasil. Veja o Chile, 20 bilhões de dólares. Nossos bancos estão formando rede financeira na América Latina.

Nós já passamos maus bocados no mundo com o comportamento estranho do governo anterior. E agora perdemos todo o capital positivo que tínhamos como país, sem falar no futebol, com excesso verbal e falta de racionalidade e defesa de nossos interesses. Essas confusões a que assistimos prejudicam nossos negócios de hoje e amanhã. A esperança é que a tradição da diplomacia brasileira prevaleça não só no trato com o exterior, mas também que consiga baixar a bola por aqui.

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Sobre o autor

Stefan Salej

Ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), empresário, analista da política internacional e presidente da Slovenian Global Business Network.

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