Vinho da Casa

Medalha de ouro para a São Patrício coloca Goiás no mapa dos grandes vinhos brasileiros

Inédita premiação para o Centro-Oeste no Decanter World Wine Awards revela o avanço da sua vitivinicultura e aponta para um terroir em formação
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A sommelière Carolina Martin estava ansiosa pela quarta-feira, 17 de junho. Diretora Comercial das vinícolas Monte Castelo e São Patrício, havia inscrito algumas amostras no Decanter World Wine Awards, um dos mais prestigiados concursos de vinhos do mundo. O resultado sairia naquele dia.

Na segunda-feira, porém, a informação apareceu antes da hora. Alguém havia vazado o resultado. Carolina soube, mas não tinha certeza de que era verdade. Preferiu esperar. Faltavam 48 horas para a confirmação oficial.

Na quarta-feira, veio a resposta. A São Patrício havia conquistado uma medalha de ouro e entrava, assim, num seleto grupo de vinícolas brasileiras, como a Casa Valduga, Amitiè, Guaspari, Ferreira e a Fazenda Capetinga (dos vinhos Maria Maria), que já haviam conquistado ouro no concurso.

Mas a notícia tinha um dado e um sabor a mais: a São Patrício está em Goiás, estado em que a produção agrícola é historicamente associada à pecuária e às grandes lavouras de soja. Ela se tornou a primeira vinícola do Centro-Oeste a receber a medalha de ouro do prêmio da Decanter.

Vinícola São Patrício
Foto: Divulgação

Mais do que uma medalha, o resultado ajuda a contar a história da jovem produção de vinhos que vem sendo construída há duas décadas. Hoje, o estado reúne cerca de 40 produtores de uvas viníferas e seis vinícolas. O avanço se tornou possível graças à técnica da dupla poda, que desloca o ciclo da videira para permitir que a colheita aconteça no inverno, período mais seco do ano.

Um dos primeiros capítulos foi escrito em Cocalzinho de Goiás, na Serra dos Pireneus. Em 2005, foram plantadas uvas viníferas na propriedade que daria origem à Pireneus Vinhos e Vinhedos, cujos primeiros rótulos comerciais chegaram ao mercado em 2010. A trajetória ganhou novos capítulos com a Vinhedo Girassol, também em Cocalzinho, e a vinícola Serra das Galés, em Paraúna, que iniciou o projeto com apenas três hectares. Em 2018, a vinícola Assunção deu início ao plantio de variedades viníferas, com a primeira produção em 2020.

É nesse cenário que surge, em 2019, a São Patrício, em Rianápolis. A primeira safra comercial foi colhida em 2021 e, desde então, a produção vem sendo ampliada de forma consistente. Em 2025, chegou a 23 mil garrafas. Entre os rótulos está o Udu de Coroa Azul Grande Reserva Cabernet Franc 2023, que conquistou a famosa medalha de ouro.

Vinho Udu de Coroa Azul
Foto: Divulgação

Com plantação a 600 metros de altitude e vinificação própria, a vinícola tem o telhado inspirado em asas, referência que também aparece nos rótulos, batizados com nomes de aves do Araguaia, como o Cauré Rosé e o Talha-Mar Reserva Blend.

A oito quilômetros dali, em Jaraguá, está a Monte Castelo, fundada em 2016. Com 6,5 hectares a 623 metros de altitude, cultiva Syrah, Cabernet Franc e Sauvignon, Marselan e Chenin Blanc. Seus vinhos vinificam nas instalações da São Patrício.

A conquista reforça que a vitivinicultura goiana começa a encontrar sua identidade. É um caminho em construção, que irá revelar, em breve, as características de um terroir próprio do Cerrado.

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Sobre o autor

Marcelle Justo

Jornalista especialista em vinhos. Tem a certificação inglesa Wine & Spirit Education Trust (WSet 2); fez a formação profissional da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-Rio) e cursou Introdução à Enologia no Senac-Rio.

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