Empresas de Minas aumentam busca por crédito mesmo com juros altos
A busca de empresas mineiras por crédito registrou crescimento de 10,2% no primeiro semestre, segundo levantamento da Serasa. É o maior percentual entre os estados da região Sudeste e o sétimo maior do Brasil. A procura cresce mesmo diante do cenário de juros altos.
De acordo com dados do Indicador de Demanda das Empresas por Crédito da Serasa Experian, divulgados nessa semana, na região Sudeste, Minas Gerais registrou alta maior que São Paulo (8,8%), Rio de Janeiro (-3,2%) e Espírito Santo (3,8%) no período.
Na comparação anual o índice também registra crescimento. De junho de 2025 para junho de 2026, a alta da busca por empréstimo entre as empresas mineiras foi de 9,4%. No acumulado de 12 meses, o índice é de 10%.
No cenário nacional, a busca por crédito também registrou crescimento, alta de 7,5% até junho. Na análise por porte, as grandes empresas registraram o mesmo índice, alta de 7,5%, a mais elevada entre os grupos analisados. Na sequência aparecem as micro e pequenas empresas (MPEs) (7,5%) e as médias (4,7%).
Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, o comportamento do indicador reflete um ambiente econômico que continua desafiador para as empresas. Segundo ela, a demanda por crédito segue em um patamar elevado, mesmo em um ambiente de juros ainda restritivos e de desaceleração da atividade econômica. “Esse comportamento evidencia que o crédito continua desempenhando um papel importante na sustentação das operações das empresas, especialmente para atender necessidades de capital de giro e gestão do fluxo de caixa”, avalia.
Entre as micro e pequenas empresas, a economista da Serasa Experian ressalta que essa necessidade tende a ser ainda mais evidente, diante dos desafios de equilibrar recebimentos, pagamentos e preservar a liquidez do negócio. Posição que a analista do Sebrae Minas Débora de Souza reforça.
Ela explica que a necessidade de crédito faz parte da própria dinâmica de funcionamento dos pequenos negócios. Isso porque o conceito de crédito vai muito além do empréstimo bancário. “Antecipar recebíveis das vendas realizadas por cartão, negociar um prazo maior para pagar fornecedores ou até mesmo utilizar recursos de outras fontes para cobrir o caixa são formas de financiamento utilizadas no dia a dia. O crédito é só eu trazer um dinheiro do futuro para o presente e conseguir utilizar aquele saldo naquele momento. Tem várias formas”, explica.
Nas micro e pequenas empresas, essa necessidade está diretamente relacionada ao capital de giro. É esse recurso que permite manter a operação funcionando enquanto a empresa espera o recebimento das vendas. Sem dinheiro disponível para comprar produtos, pagar fornecedores, funcionários e outras despesas, a atividade pode ser comprometida. “O capital de giro é o que faz a empresa funcionar. Se eu não tiver o capital que vai fazer com que a minha engrenagem funcione, eu não vou ter clientes, eu não vou ter produtos e, no final das contas, aquela empresa vai parar a operação”, afirma a analista.
Mistura entre contas pessoais e empresariais
Outro fator que contribui para a necessidade recorrente de crédito entre os pequenos negócios é a dificuldade de separar as finanças da empresa das contas pessoais do proprietário. Segundo Débora de Souza, é comum que o empreendedor retire dinheiro do caixa da empresa para pagar despesas particulares, como aluguel ou plano de saúde, reduzindo os recursos disponíveis para a operação. “Esse descasamento financeiro acaba aumentando a necessidade de buscar recursos para manter o negócio funcionando”, diz.
Além disso, o pequeno empresário costuma recorrer a diferentes alternativas antes de contratar um empréstimo empresarial. Ele tenta primeiro negociar o pagamento com fornecedores, antecipar recebíveis ou utilizar o cartão de crédito pessoal. “Para só depois dessas alternativas usar o crédito contratado diretamente pela pessoa jurídica”.
Esse comportamento ajuda a explicar por que as micro e pequenas empresas não necessariamente lideram os rankings de procura por crédito, mesmo tendo uma necessidade frequente de recursos. “As médias e grandes companhias, além de movimentarem valores maiores em função do próprio porte e faturamento, também dependem de financiamentos para operações de maior escala”, comenta.
Nesse sentido, a analista do Sebrae aponta que há ainda uma diferença importante no destino dos recursos. Enquanto empresas maiores podem captar dinheiro para investimentos e projetos de expansão, as micro e pequenas empresas recorrem ao crédito, em grande parte, para capital de giro e pagamento de dívidas. “Ela pega crédito em grande maioria para capital de giro. Então, vai ser para pagar a dívida, para fazer com que a empresa funcione no próximo mês”.
Juros altos elevam os custos
O aumento da procura ocorre mesmo em um cenário de juros elevados, que torna os empréstimos mais caros para as empresas. Débora de Souza explica que isso ocorre justamente porque o crédito, apesar de mais caro, continua sendo necessário para manter a operação.
“As taxas elevadas aumentam o custo efetivo das operações e também são influenciadas pelo chamado spread bancário, que incorpora, entre outros fatores, o risco de inadimplência. Com isso, o empresário precisa pagar mais para obter os recursos”, finaliza.
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