Desinvestimento: juros altos levam empresas a vender ativos e focar no negócio principal
Após ampliarem seus portfólios em períodos de juros menores e ambiente mais favorável a investimentos, a tendência para 2026 é que grandes empresas façam o caminho de volta ao chamado core business, ou seja, à atividade principal que o negócio realiza no mercado.
“Empresas precisam fazer investimentos para manter a estrutura do negócio. Quanto mais negócios uma empresa possui, mais capital ela precisa. Esses investimentos têm dispêndios. Atualmente, esse custo de capital está elevado porque os juros estão altos. Por isso, muitos negócios têm optado por desinvestir e focar em investimentos que tragam mais retorno e menor risco, justamente na sua principal cadeia de valor, aquilo que dominam e no qual possuem rentabilidade no mercado”, explica o professor do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais (CCA) da Universidade de Brasília (UnB) Bruno Vinícius Ramos Fernandes.
Nesse processo, em que o custo médio de capital está elevado e torna mais difícil obter retorno positivo, empresas abortam projetos e reduzem áreas de atuação e segmentos. O desinvestimento, segundo Fernandes, é mais comum em setores que demandam muito capital, como agronegócio, mineração, construção civil e infraestrutura.
Business core: onde a empresa conhece suas fortalezas e fraquezas
O professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap)Jefferson Prado, lembra que qualquer investimento feito por empresas gira em torno de uma tríade: risco, retorno e liquidez. Assim, quando uma companhia investe em um ativo ou negócio mais arriscado, acredita que poderá obter retorno maior, mesmo que ele demore a acontecer. No entanto, esse retorno pode não vir, abrindo espaço para o desinvestimento.
“Se, após determinado período, o retorno esperado não se concretizar, a empresa recorre à outra parte da tríade, que é a liquidez, para se desfazer desse ativo. Por exemplo: se uma siderúrgica decide investir em um minério diferente no mercado da Índia, cria uma expectativa de faturamento em dólar e de expansão internacional, podendo inclusive contrair dívidas em dólar para obter retorno naquele mercado. Se o tempo passar e esse retorno não vier, será necessário buscar liquidez, ou seja, abrir mão desse ativo para outro player do mercado”, contextualiza Prado.
Ele completa que, em um cenário macroeconômico incerto, as empresas retornam ao seu business core. “É nesse ambiente que a companhia conhece os riscos adjacentes e consegue reagir com mais rapidez diante de problemas, como falhas de fornecimento ou quebra de fornecedores. Como se trata do negócio principal, a gestão tende a navegar com mais segurança. Já em mercados correlatos, talvez a decisão não seja tão assertiva. Nesse cenário, é economicamente racional focar no negócio principal diante da incerteza”, conclui.
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