Projeto Preserva

Da Mantiqueira ao resto do Brasil, o desafio de restaurar com dados e informação

Iniciativas locais e em larga escala avançam, mas faltam dados integrados

No Sul de Minas Gerais, produtores das Terras Altas da Mantiqueira decidiram transformar suas propriedades em áreas de regeneração da Mata Atlântica. Em municípios como Itamonte, Itanhandu, Passa Quatro e Pouso Alto, eles assumiram o compromisso de restaurar a vegetação nativa enquanto desenvolvem projetos de crédito de carbono.

Ao longo de três anos, cercaram nascentes, recuperaram matas ciliares e plantaram mudas. Hoje, a paisagem começa a mudar. Árvores jovens ganham altura, o solo recupera sua capacidade de retenção e a água volta a percorrer caminhos antes interrompidos.

O Projeto Carbono é um ponto verde no nosso Mapa de Soluções Ambientais e ganha relevância na corrida do Brasil pela restauração dos biomas. Seu impacto é local, mas revela que a complexa teia que chamamos de biodiversidade não se constrói apenas em escala ou nos indicadores das planilhas. Ela nasce da soma de muitas iniciativas espalhadas pelo território. Esses esforços sustentam a restauração no país, mas ainda operam de forma dispersa e pouco conectada.

O Brasil assumiu a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. Trata-se de um compromisso que reflete a relevância ambiental, social e econômica dessa agenda. A restauração contribui para recuperar a biodiversidade e os solos, ampliar a segurança hídrica e enfrentar as mudanças climáticas, além de fortalecer a resiliência das paisagens produtivas.

Segundo avaliação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, cerca de 3,4 milhões de hectares já estão em processo de restauração. É um avanço, mas ainda distante da meta estabelecida. Para a ONG WRI Brasil, a restauração em larga escala é desafio estrutural do país. Pela ótica de quem investe, a ausência de métricas padronizadas e de sistemas robustos de monitoramento eleva a percepção de risco e dificulta a expansão dos projetos.

Um dos gargalos é a falta de um mecanismo nacional capaz de consolidar dados sobre áreas restauradas, volume de investimentos, localização dos projetos e perfil dos empreendedores. Sem essa base integrada, é difícil compreender a real escala das iniciativas e avaliar sua efetividade. Hoje, as informações estão dispersas entre produtores rurais, empresas e diferentes níveis de governo, financiadas por recursos próprios, fundos privados, programas públicos ou doações individuais, mas sem conexão entre si.

A informação precisa ser tratada como um insumo estratégico da restauração. Mapear, organizar e dar transparência às iniciativas é parte do próprio processo de restaurar. Nos próximos artigos, vamos aprofundar outros gargalos que o país enfrenta para atingir a meta de recuperação da vegetação nativa.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas