Pets no escritório: bem-estar ou novo conflito corporativo?
Está em andamento, com o apoio da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a pesquisa “Estudo da Saúde Corporativa Brasileira”, conduzida pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e pela Universidade de São Paulo (USP), com a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil). A ideia é melhorar políticas públicas e estratégias corporativas de saúde.
Entre os diversos aspectos que envolvem esse debate, um tema chama a atenção: a prática crescente no país de abrir as portas dos escritórios para os animais de estimação, especialmente cães e gatos, com o propósito de promover bem-estar corporativo, saúde mental, engajamento e retenção de talentos. Trata-se do chamado pet-friendly corporativo.
Para a ABRH-SP, a presença de animais no ambiente corporativo pode contribuir para a redução do estresse e da ansiedade; melhorar o clima organizacional; aumentar o senso de pertencimento; fortalecer a cultura interna das empresas. A entidade também aponta impactos positivos na atração e retenção de talentos, especialmente entre profissionais das gerações mais jovens.
Será mesmo?
Há críticas severas à medida, especialmente em segmentos considerados não compatíveis com a proposta, como escritórios com alta concentração de pessoas, setores de atendimento ao público, áreas operacionais e industriais, laboratórios, hospitais ou ambientes regulados que podem sofrer impactos negativos com a presença de animais.
A convivência com pets no trabalho pode também resultar em distração e queda de produtividade; aumento de ruído, interrupções constantes da rotina, riscos sanitários e de segurança, e conflitos entre os colaboradores decorrentes de alergias e incômodos. Nesse aspecto surgem ainda as fobias, hipersensibilidade sensorial, restrições culturais e o próprio medo de cães, os pets mais comuns nas empresas. Ou seja, a empresa acaba criando o bem-estar de uma equipe e o mal-estar de outra.
No entanto, a entrada dos pets segue regras específicas e cada segmento ou empresa adotante da prática estabelece as suas. A legislação brasileira não aborda o tema e deixa a decisão livre para os empresários e gestores. Responsáveis pela área de compliance e segurança do trabalho também alertam para as questões que podem gerar problemas judiciais como mordidas; danos a equipamentos; responsabilidade civil; conflitos trabalhistas e questões de seguro corporativo.
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Os locais mais comuns onde a cultura pet-friendly está se estabelecendo estão nas áreas de tecnologia; economia criativa; marketing, inovação; mercado pet; startups e espaços de coworking. Interessante ressaltar que a adoção dessa prática costuma funcionar também como posicionamento de marca para atrair profissionais. Muitas empresas usam o pet-friendly para comunicar modernidade, acolhimento e flexibilidade cultural. Ao mesmo tempo, cresce a discussão sobre até que ponto isso representa uma transformação genuína ou apenas um símbolo de cultura “descolada”.
De qualquer forma, levar o pet para o trabalho segue regras de convivência, higiene, segurança, adaptação de espaço, respeito às pessoas alérgicas ou às que têm medo de animais. Grandes companhias, como Nestlé, Google, Amazon e Heineken, já incorporaram iniciativas relacionadas ao ambiente corporativo pet-friendly. No segmento voltado ao mercado animal, empresas como Petz e Cobasi também adotam práticas alinhadas a essa cultura. Já a Azul Linhas Aéreas se destaca por ações voltadas à convivência com animais e ao transporte de pets na cabine, reforçando um posicionamento mais receptivo ao tema.
Na busca por ambientes mais humanizados, o desafio das empresas talvez seja compreender que ambientes verdadeiramente saudáveis são aqueles capazes de acolher diferentes formas de convivência sem transformar o bem-estar em privilégio de alguns. A discussão, portanto, talvez não esteja em decidir se pets devem ou não frequentar os escritórios, mas em entender até que ponto a convivência é capaz de respeitar, de forma equilibrada, tanto quem vê nos animais conforto emocional quanto quem encontra neles desconforto, limitação ou insegurança.
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