O Convite: uma comédia dramática inteligente sobre fantasias sexuais e desilusões na vida conjugal
Num charmoso apartamento em São Francisco, o jantar parece informal: tapete elegante, suflê e queijos vários. Aproveitando a noite livre sem a filha adolescente, os donos da casa recebem um casal de vizinhos. Entre goles de vinho e baforadas de maconha, o ar ganha uma carga erótica imprevista, que descamba para a perplexidade no instante em que os anfitriões descobrem o passatempo preferido dos vizinhos: a promoção de surubas.
Dirigido e coestrelado por Olivia Wilde, O Convite inspira-se numa peça catalã (Los Vecinos de Arriba) para transformar um jantar aparentemente casual num irresistível ensaio sobre as misérias do cotidiano. No papel, o argumento sugere uma chanchada erótica ancorada num escândalo doméstico. Na prática, o convite do título atua apenas como catalisador de um fenômeno bem mais perturbador: um casal de mentalidade burguesa diante de uma provocação que os obriga a desenterrar a contabilidade do próprio casamento. Basta trancar quatro adultos numa sala de jantar para que a polidez estraçalhe e venham à tona as recriminações, as inseguranças, os desejos reprimidos e a massa densa de silêncios acumulados ao longo dos anos.
O filme nunca fala verdadeiramente sobre sexo. Seu tema real é o tempo. Trata da constatação estarrecedora em que dois sujeitos descobrem que ainda dividem o mesmo teto, a mesma cama e as mesmas rotinas, mas já não conseguem precisar o exato instante em que pararam de se olhar com desejo. Penélope Cruz e Edward Norton dão vida aos vizinhos Piña e Hawk (ela, uma terapeuta sexual; ele, um ex-bombeiro), compondo com brilho o contraponto perfeito à neurose dos donos da casa.
O espectador é então arrastado para as entranhas da frustração madura. Há o cansaço do corpo depois dos 40 anos, as dores musculares, a insônia crônica e o peso de coexistir somado a ressentimentos profundos que o verniz social, vira e mexe, varre para debaixo do tapete. O que começa como um constrangimento insuportável descamba para o absurdo, transitando com maestria entre a graça e o soco no estômago.
Com atuações irretocáveis e um ritmo cênico milimétrico, Wilde demonstra como um bom roteiro é capaz de converter a arquitetura de um apartamento, um jantar e meia dúzia de frases cruzadas num palco inesgotável para desnudar as contradições do amor.
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