Enxergar para reagir
A multiplicação dos acidentes envolvendo motocicletas, numa curva de crescimento que deveria bastar para provocar reações corretivas, aparentemente vai sendo incorporada ao cotidiano. E já não parece merecer grandes espaços nos noticiário como se estivéssemos todos diante do inescapável ou se não fosse claramente percebida as proporções de uma epidemia, com impactos diretos e graves no sistema de saúde pública e na previdência social, além do mercado de trabalho. Ou mais um daqueles casos em que caberia lembrar que é preciso acordar para reagir, entendendo-se como urgente chamar as autoridades, se não mais amplamente a própria sociedade, à responsabilidade.
Não se trata mais de repetir estatísticas, de tentar mostrar como acidentes e, sobretudo, fatalidades, se multiplicam, causando dor e sofrimento para vítimas diretas e indiretas, além da superlotação cotidiana de prontos-socorros e centros de trauma, já a ponto de comprometer a capacidade de atendimento. Hoje, em hospitais de referência, como o pronto-socorro de Belo Horizonte, vítimas desses acidentes chegam a ocupar a maioria das vagas de trauma hospitalar, a ponto de não raro provocar adiamento ou suspensão de cirurgias eletivas.
Este é um quadro de rotina, hoje, para os centros de saúde no País. Os acidentes de trânsito geram casos de alta complexidade, como politraumatismos, que têm prioridade imediata na fila cirúrgica, fazendo com que procedimentos de outros pacientes acabem sendo postergados. E tudo isso com os acidentes com motos gerando custos muito elevados para a saúde pública, chegando a representar liderança isolada nos custos com internações por acidentes de transporte terrestre. Carga igualmente pesada para a previdência social, que deve suportar os custos de casos de invalidez permanente, auxílios e aposentadorias precoces.
Apenas no Rio de Janeiro o número de acidentes envolvendo motocicletas dobrou entre os anos 2019 e 25 enquanto registros do Sistema Único de Saúde (SUS) acusam gastos nacionais, diretos, da ordem de R$ 273 milhões com este tipo de atendimento no ano anterior. Para concluir, nada que possa ser tratado com indiferença ou varrido para debaixo de algum tapete como se tudo não passasse de produto do aumento do número de veículos em circulação, impulsionado pelo mercado de entregas por aplicativos e outras formas de atendimento que são hoje absolutamente essenciais. É preciso enxergar – para reagir – e não se pode dar a batalha como perdida, como se estivéssemos todos diante de mera e perversa consequência da modernidade.
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