Agronegócio

Veto da UE à carne ameaça exportações de US$ 82,2 milhões em Minas Gerais

Indústria vê protecionismo em veto europeu à carne brasileira e governo federal busca negociação para reverter restrição

O veto da União Europeia (UE) à carne brasileira, a partir de setembro, coloca em risco exportações que, somente em Minas Gerais, somaram US$ 82,2 milhões no ano passado. Resultado da atualização da lista de países que cumprem regras contra o uso excessivo de antibióticos na pecuária, que definiu a retirada do Brasil, a decisão da UE é vista pela indústria de carnes mineira como uma medida protecionista disfarçada de barreira sanitária. Em reação, o governo brasileiro informou que trabalha para reverter a decisão e que tem uma reunião agendada para quarta-feira (13) com as autoridades sanitárias do bloco.

“A gente vê (o veto) como barreira comercial executada como se fosse sanitária. Ou seja, vão criando dificuldades para a gente não conseguir acessar o mercado. E é uma carne que já atende os maiores mercados consumidores do mundo, que são os Estados Unidos e a China. Hoje a gente já, praticamente, não atende a UE. Então, é mais uma movimentação interna deles para protegê-los dessa carne que tem, sim, uma boa qualidade e um preço mais acessível”, avalia o presidente do Sindicato das Indústrias de Carne, Derivados e de Frios de Minas Gerais (Sinduscarne), Pedro Braga, que vê um enfraquecimento do acordo de livre comércio do bloco europeu com países do Mercosul.

Se a situação se mantiver, o Brasil fica impedido de enviar carnes de boi, de frango, de cavalo, além de tripas, peixe e mel à UE a partir de 3 de setembro. A lista, no entanto, pode ser modificada em breve, a depender das articulações das autoridades brasileiras junto ao bloco, que foi o terceiro maior destino de exportações de carne do País em 2025.

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Levantamento do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) mostra que produtos potencialmente afetados somaram US$ 33,44 bilhões em exportações brasileiras em 2025, sendo US$ 1,81 bilhão destinados à União Europeia, o equivalente a 5,4% dos embarques do setor de proteína animal. Em Minas Gerais, as exportações do grupo alcançaram US$ 1,9 bilhão, com US$ 82,28 milhões enviados ao mercado europeu, participação de 4,3%.

Segundo o presidente do Sinduscarne, a vantagem de vender para a UE é a possibilidade de comercializar o produto com maior valor de venda, pois é um cliente com alto poder aquisitivo e que prefere carnes em cortes mais nobres.

“Agora, (o veto) não vai impactar o volume de exportações do Brasil fortemente. A gente atende praticamente todos os continentes. É interessante sempre ter mais clientes para vender, mas a gente não vai deixar de produzir o tanto que tem produzido e nem vai deixar de ser o maior exportador do mundo por conta disso”, completa.

Fiemg manifesta preocupação com a possível restrição

Many adult pigs at a pig farm. Livestock breeding. Meat industry and agriculture.

Em nota, a Fiemg pontua que, por se tratar de um documento ainda preliminar, a expectativa é de continuidade do diálogo técnico antes da publicação da versão definitiva, pois a eventual manutenção do Brasil fora da lista preocupa por atingir cadeias relevantes para a pauta exportadora brasileira e mineira.

“Mesmo representando uma parcela ainda limitada dos embarques totais, o mercado europeu tem apresentado crescimento expressivo nos últimos anos, especialmente nas cadeias de carnes e mel, produtos de forte relevância para Minas Gerais e para o Brasil. Esses estão entre os segmentos mais beneficiados pelo acordo Mercosul-União Europeia, considerando que boa parte das exportações mineiras ao bloco é composta por produtos minerais e insumos industriais que já possuem isenção tarifária”, defende a coordenadora de Facilitação de Negócios Internacionais da Fiemg, Verônica Winter.

Reação brasileira e próximos passos

Em nota conjunta divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o governo brasileiro pontuou que adotará “todas as medidas necessárias” para reverter a decisão e garantir a continuidade das vendas ao mercado europeu.

Uma das ações para esse fim, segundo o governo, é uma reunião entre o chefe da delegação brasileira junto à União Europeia agendada para esta quarta-feira (13) com autoridades sanitárias europeias. “O objetivo do encontro será buscar esclarecimentos sobre os motivos da exclusão do Brasil da lista de exportadores autorizados”, informa a nota.

Associação de Proteína Animal garante cumprimento de normas

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Em nota, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informa que o Brasil, por meio do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e com apoio técnico do setor produtivo privado, prestará todos os esclarecimentos necessários à União Europeia acerca das diretrizes técnicas relacionadas aos antimicrobianos, visando ao retorno do Brasil à lista de países autorizados.

“É importante enfatizar: o Brasil cumpre integralmente todos os requisitos da União Europeia, inclusive no que tange aos regulamentos sobre antimicrobianos. É o que o Brasil demonstrará às autoridades sanitárias europeias. Outro ponto que cabe esclarecer é que as exportações não estão suspensas. A lista de países em não conformidade, que ainda pende de publicação oficial, somente entrará em vigor a partir de 3 de setembro”, declara a ABPA.

Ainda conforme a entidade, o Mapa está em tratativas para demonstrar que os protocolos europeus são plenamente atendidos pelas empresas e fiscalizados pelo órgão oficial, sendo observados tanto para todos os destinos de exportação quanto para o mercado interno.

Cota da China também pode afetar exportação de carne brasileira

A restrição da UE acontece em um momento já delicado para o setor. No sábado (9), o governo chinês informou que o Brasil atingiu metade da cota de exportação de carne bovina com permissão para entrar no país asiático com tarifa reduzida de 12%. O limite é de 1,1 milhão de toneladas por ano. Assim, se ultrapassar esse quantitativo, a proteína brasileira passa a ser taxada em 55%. A medida chinesa visa proteger a pecuária local e foi implementada no início deste ano.

De acordo com especialistas, o volume de envio brasileiro foi reforçado pelas empresas do País justamente para evitar uma taxação maior. Conforme a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), se a cota for vencida, o resultado prático será a queda de 10% nas exportações brasileiras em 2026 na comparação com 2025.

No ano passado, o Brasil exportou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina. Desse total, 1,7 milhão de toneladas foram para a China, ainda segundo a entidade.

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