Editorial

Migração de trabalhadores

Migração de trabalhadores para plataformas digitais impulsiona a venda de veículos e aponta mudanças profundas no mercado de trabalho
Migração de trabalhadores
Crédito: Adobe Stock

Os últimos dados sobre o mercado de veículos mostram uma mudança considerável no perfil do consumidor no Brasil. As vendas atualmente são impulsionadas pelos segmentos de comerciais leves, além dos automóveis, para serem utilizados como ferramenta de trabalho em plataformas como Uber e na entrega para grandes empresas do e-commerce, como Mercado Livre, Shopee e Amazon.

De acordo com os últimos dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), os emplacamentos de veículos em Minas Gerais somaram 267.572 unidades no primeiro quadrimestre de 2026, resultado 36% maior do que em igual período do ano passado, quando foram emplacadas 196.559 unidades.

Os carros de passeio e comerciais leves foram os grandes protagonistas desse desempenho robusto: foram emplacadas 200.630 unidades no acumulado do ano, volume 47% superior ao registrado em igual intervalo de 2025, quando 135.991 novos veículos foram vendidos.

De certa forma, esse é mais um efeito das mudanças nas relações de trabalho em nossa sociedade. Há uma clara transferência de mão de obra de empresas “tradicionais” para as grandes plataformas tecnológicas.

Um grande contingente está deixando os empregos em escritórios, lojas e supermercados, com carteira assinada, para atuar com aplicativos de mobilidade ou fazendo entregas de produtos vendidos no comércio eletrônico. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o número de pessoas que trabalham por meio de aplicativos cresceu 25,4% em 2024, na comparação com 2022. Nesse intervalo, o contingente de trabalhadores nessa condição passou de 1,3 milhão para quase 1,7 milhão.

Alguns fazem essa mudança por necessidade, devido à dificuldade em encontrar oportunidades no mercado de trabalho “tradicional”, mas boa parte encontra nessa nova forma de trabalho uma alternativa para impulsionar a renda, mesmo que isso signifique a perda de direitos, como FGTS e INSS.

Este cenário levanta um questionamento importante: a migração da força de trabalho para as plataformas tecnológicas não estaria contribuindo para a escassez de mão de obra em setores como supermercados, comércio e construção civil? Diante dessa nova realidade, empresas e governos precisarão compreender melhor as transformações no perfil do trabalhador brasileiro. Mais do que disputar profissionais, será necessário criar condições capazes de tornar o emprego formal novamente atrativo em um mercado cada vez mais marcado pela flexibilidade e pela autonomia das plataformas digitais.

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