Apesar do crescimento pouco acima de 1% do PIB nacional, o Ibovespa chegou ao recorde de 117 mil pontos - Crédito: REUTERS/Amanda Perobelli

O Brasil de 2019 foi marcado pela manutenção da trajetória de recuperação da economia em ritmo ainda fraco, embora mais acelerado na reta final e com boas perspectivas para 2020. Com crescimento próximo de 1% e sustentado por um maior consumo das famílias, em meio a um cenário de juros baixos, inflação controlada e expansão do volume das operações de crédito, o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) neste exercício frustrou a maioria das projeções.

É o que afirmam economistas e analistas ouvidos pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO que, mais uma vez, alertam para a necessidade da aprovação das reformas estruturantes do País em prol de uma retomada consistente da economia a partir de 2020.

O ano que chegou ao fim foi marcado por extremos, com o Ibovespa alcançando inéditos 117 mil pontos e cotação recorde do dólar a R$ 4,2584. O número de trabalhadores no mercado informal chegou à máxima de 38,8 milhões. Já a taxa básica de juros (Selic) atingiu a mínima histórica, em 4,5% ao ano.

No começo de 2019, o boletim Focus do Banco Central (BC), por exemplo, projetava para o PIB uma alta de 2,53%, segundo a mediana das previsões. A alta se justificava pelo otimismo do mercado em relação à economia brasileira com a eleição de Jair Bolsonaro para presidente da República e a indicação de Paulo Guedes ao Ministério da Economia. O último relatório Focus, porém, apresentou projeção de 1,17% para o PIB brasileiro neste exercício. Já para o próximo ano, o ponto médio das expectativas para as receitas do País ficou estimado em 2,30%.

O pesquisador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), Marcel Balassiano, definiu 2019 como o terceiro ano de pós-recessão e, ao mesmo tempo, o terceiro de crescimento econômico lento. Ele destacou os diferentes comportamentos das atividades nos últimos exercícios.

“Em 2017 tivemos um crescimento muito forte da agropecuária, por questões sazonais. Em 2018 e 2019 o desempenho foi puxado pelas atividades de indústria e serviços. Além disso, nos dois últimos anos tivemos eventos não esperados que influenciaram os resultados, como a greve dos caminhoneiros e as incertezas no campo eleitoral, no ano passado e, neste ano, a guerra comercial entre China e Estados Unidos, a crise da Argentina e o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho”, detalhou.

Para o ano que vem, além da própria expectativa de retomada mais consistente da atividade econômica brasileira, conforme Balassiano, há o chamado carregamento estatístico, que ocorre em virtude do efeito base de comparação com os resultados fracos dos últimos anos. “Se o Brasil não crescer nada em 2020, ainda assim, o PIB aumentará em 1%”, explicou.

Reformas – Quanto à necessidade da continuidade da agenda de reformas estruturantes por parte do governo federal, ele argumentou que é uma condição necessária, mas não suficiente para o crescimento do futuro. “É necessária para parar de piorar. Mas não traz garantias de melhora. Os resultados virão em médio e longo prazos”, ponderou.

O economista e coordenador do curso de economia do Ibmec, Márcio Salvato, ressaltou a importância da discussão das reformas já no decorrer de 2019. Segundo ele, embora somente a da Previdência tenha sido aprovada, outros campos nacionais registraram avanços e possivelmente serão concluídos no próximo ano.

“O primeiro semestre foi muito fraco, o que levou a um resultado aquém do previsto no encerramento de 2019. O processo de recuperação da economia não decolou, justamente, pelo atraso na aprovação das reformas. Um ponto muito positivo foi a Lei da Liberdade Econômica, sancionada em setembro, que trouxe novo fôlego para as empresas diante da possibilidade de desburocratização”, avaliou.

Segundo ele, o cenário em 2020 promete ser diferente. A começar pelas projeções otimistas, impulsionadas pelo aquecimento observado nos últimos meses. A retomada dos investimentos no País também deverá colaborar para uma economia mais robusta no próximo ano.

“Acredito que manteremos o cenário de juros baixos, inflação controlada e câmbio acima dos níveis atuais, chegando a R$ 4,40. No geral, teremos um bom período no mercado interno e o cenário internacional deverá colaborar, já que China e Estados Unidos caminham para encerrar a disputa comercial que afetou a economia global em 2019”, projetou.

Mercado sólido – O analista da Terra Investimentos, Vanei Nagem, não acredita em tantas mudanças para o ano que se inicia, mas aposta em um mercado mais sólido e com metas a serem cumpridas.

“Precisamos de alguns pacotes que deixem a economia mais favorável, algo no campo tributário e revisão dos gastos públicos, por exemplo. Caso consigamos avançar nesses aspectos, talvez comecemos realmente a colher os frutos em 2020”, disse.

Para o economista, 2019 foi o momento de o novo governo arrumar a casa de maneira a por em prática suas promessas nos períodos seguintes. “Bolsonaro carregou uma herança muito ruim de 2017 e 2018, por isso não tinha como 2019 ser maravilhoso. Agora é encarar 2020 para que haja um crescimento verdadeiro da economia”, apostou.