Um em cada três bares e restaurantes de Minas tem pagamentos em atraso
A saúde financeira do setor de alimentação fora do lar em Minas Gerais acende um sinal de alerta. Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 34% das empresas do segmento têm pagamentos em atraso. Entre os estabelecimentos com pendências, os impostos federais são os débitos mais comuns, citados por 73% dos empresários, seguidos pelos tributos estaduais, mencionados por 58%.
O levantamento também aponta que 42% dos estabelecimentos operaram com lucro em agosto, enquanto 39% registraram estabilidade e 17% tiveram prejuízo. Outros 2% das empresas não existiam no período pesquisado. (Veja o infográfico abaixo).
Pandemia ainda deixa marcas nas contas do setor
Para o proprietário do restaurante Maria das Tranças, no bairro São Francisco, região da Pampulha, Ricardo Rodrigues, parte desse passivo ainda é consequência do período em que bares e restaurantes foram duramente afetados pelas restrições de funcionamento na pandemia.
“Apesar de a gente estar quatro anos no pós-pandemia, ela foi um carrasco para o segmento. Muita gente que tem dívida de impostos ainda vem de um resíduo das turbulências enfrentadas pelo setor em 2020 e 2021”, observa.
Rodrigues explica que, diante da necessidade de manter o pagamento de fornecedores e funcionários em dia, alguns estabelecimentos acabam postergando a quitação dos tributos. “Às vezes o empresário segura o fornecedor, segura a mão de obra e acaba parcelando o imposto”, conta.
Segundo ele, a lógica é priorizar compromissos que se não honrados podem interromper imediatamente a operação. O empresário acrescenta que o atraso com fornecedores pode comprometer o abastecimento, enquanto a falta de pagamento da folha pode resultar na perda de funcionários.
Na avaliação do empresário, essa é uma alternativa à qual alguns empreendedores recorrem antes de buscar crédito no sistema financeiro.

Dívidas podem limitar fôlego financeiro do setor
Para o economista e professor dos cursos de gestão e negócios do Centro Universitário UniBH, Fernando Sette, esse tipo de ajuste apontado por Ricardo Rodrigues pode aliviar o caixa no curto prazo, mas tende a tornar a situação mais difícil à medida que o passivo acumula juros, multas e encargos. Segundo ele, a empresa passa a operar com menor margem, maior necessidade de capital de giro e menos capacidade para enfrentar novos aumentos de custos ou uma eventual desaceleração das vendas.
“Isso não significa que os estabelecimentos inadimplentes estejam necessariamente próximos de fechar, mas mostra uma redução da capacidade de absorver novos choques. Se esse cenário persistir, devem ganhar importância medidas como renegociação de dívidas, parcelamentos tributários, revisão de custos e cardápios e reestruturação da operação, sobretudo entre empresas menores e com menor reserva financeira”, avalia.
Custos elevados limitam ganho dos restaurantes
A pesquisa da Abrasel revela ainda que o faturamento de bares e restaurantes no Estado também apresentou um cenário dividido. Em agosto, 37% dos estabelecimentos registraram aumento na receita em comparação com julho. Outros 25% mantiveram estabilidade, enquanto 37% apontaram queda. Já 1% das empresas não existiam no período pesquisado.
Segundo Fernando Sette, o aumento do faturamento não tem se convertido, na mesma proporção, em melhora da rentabilidade porque os custos da operação continuam pressionados.
“Alimentos e bebidas, mão de obra, energia, aluguel, tributos, taxas de meios de pagamento e despesas financeiras avançam sobre uma estrutura que já possui pouca flexibilidade no curto prazo”, observa.
Empresários têm dificuldade para repassar custos
O especialista chama a atenção para outro dado do levantamento setorial: a dificuldade de recompor preços aparece como um dos principais desafios para os empresários mineiros. Nos últimos 12 meses, 39% dos estabelecimentos não conseguiram reajustar seus preços. “Isso mostra que parte relevante desse aumento está sendo absorvida pelas próprias empresas, com impacto direto sobre suas margens”, explica.
O economista aponta ainda que um reajuste mais elevado pode reduzir a frequência do consumidor, o tíquete médio ou provocar a migração para opções mais acessíveis. Por isso, muitos empresários, segundo ele, acabam preservando o volume de vendas, ainda que com menor margem por operação.

“É justamente essa combinação que explica a aparente contradição dos números: o estabelecimento pode registrar crescimento da receita e, ainda assim, ter pouco avanço no resultado ou até operar no prejuízo. O desafio hoje, portanto, não está apenas em vender mais, mas em conseguir transformar esse faturamento em margem e geração efetiva de caixa”, analisa.
Rodrigues complementa a avaliação de Fernando Sette ao destacar o efeito acumulado da inflação e dos custos operacionais. “Por mais que o mercado não aceite você fazer um reajuste de preço, a gente tem uma inflação real, uma taxa Selic elevadíssima e uma economia meio descontrolada no que diz respeito à parte de insumo”, afirma.
Gestão do caixa ganha importância para o setor
Para a presidente da Abrasel em Minas Gerais, Karla Rocha, os números reforçam a necessidade de equilíbrio na gestão dos negócios.
“Em Minas Gerais, os empresários enfrentam um cenário de maior comprometimento financeiro e precisam administrar o caixa com cautela, buscando manter as contas em dia e preservar o equilíbrio do negócio sem perder a competitividade”, conclui.
A pesquisa da Abrasel ouviu 214 empresários do setor em Minas Gerais entre os dias 21 e 30 de setembro.
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